A Lei do 100–10–1 das startups

Dados demostram que a faixa etária com o maior número de representantes entre as top 100 startups mais atraentes para o mercado está entre 36 e 40 anos

Dados recentes mostram que o impacto das startups nas economias é extremamente significativo. Um estudo da Universidade de Stanford de 2015, demostra que as versões americanas que receberam aporte de venture capital e se tornaram empresas listadas em bolsa, empregam mais de quatro milhões de pessoas.

Além disso, estas startups investem 44% do total dos seus gastos com pesquisa e desenvolvimento do total das empresas listadas em bolsa, e representam 20% do valor total do mercado capitais no país. Somente em 2018, foram aportados 130 bilhões de dólares em 9,845 rodadas de investimento de venture capital nas startups do país, de acordo com o PitchBook.

No Brasil, o movimento das startups vem despertando crescente atenção do mercado como um todo, apresentando-se como uma oportunidade real de desenvolvimento econômico, alternativa de investimento e carreira para executivos após produzir a sua primeira safra de “unicórnios” (startups com valor de mercado superior a 1 bilhão de dólares) e atingir o respeitável volume de 1,3 bilhões de dólares de investimento de venture capital em 2018 em 259 rodadas, segundo dados da Associação de Investimento de Capital Privado na América Latina (LAVCA, em inglês).

Vivemos, no país, um momento de grande estímulo social e de mercado para iniciar uma startup. Multiplicam-se os cursos e programas oferecidos pelos mais diferentes tipos de entidades. Desde organização sem fins lucrativos, associações, universidades, entidades públicas, até redes de investidores-anjo, aceleradoras, e, inclusive, espaços de co-working e programas de grandes empresas.

Antes mais restrito ao ambiente universitário, o fomento geral ao empreendedorismo de alto impacto atinge profissionais cada vez mais maduros. À medida que caem os mitos de que startup é coisa de jovens estudantes, hoje são executivos de maior experiência que criam as startups de maior destaque do mercado.

Dados da 100 Open Startups demostram que a faixa etária com o maior número de representantes entre as top 100 startups mais atraentes para o mercado está entre 36 e 40 anos. Ou seja, ao passo que iniciar uma startup no país se torna cada vez mais atraente, mais preparados devem ser os profissionais para se destacarem neste ambiente.

Naturalmente, o impacto do movimento de startups não se restringe àqueles que optaram por se tornarem empreendedores.

Atualmente, na plataforma 100 Open Startups, a média de novos cadastros atingiu 330 por mês, largamente superada pelos quase 900 novos registros mensais de profissionais que ingressam na plataforma, não como empreendedores, mas como avaliadores das startups. Neste momento, participam do programa nove mil startups e 25 mil profissionais na posição de avaliadores.

Mas qual é a relevância desse enorme afluente de profissionais interessadas em avaliar startups?

Nos mercados mais maduros de investimento em startups, prevaleceu no passado a regra de 100-10-1 para formação de portfólios de aplicação de fundos de venture capital. A cada 100 oportunidades de negócio, o fundo escolhe 10 para investir e tem a expectativa de acertar em cheio em um investimento que dê o retorno esperado aos investidores.

Como ocorreu em outros países, o aumento significativo do número de startups foi acompanhado pelo surgimento dos micro-investidores. Aceleradoras, redes de investidores-anjos, plataformas de crowd-funding e fundo de micro venture capital inseriram mais uma camada na regra 100-10-1. Vem se consolidando uma métrica de mercado que diz que a cada 1.000 startups que recebem investimentos, uma se torna unicórnio.

O fato é que a sociedade e o mercado como um todo estão em transformação, e a inovação é condição fundamental para a competição e sobrevivência de empresas qualquer que seja o seu tamanho ou setor de atuação. Os profissionais têm cada vez mais clara a percepção de que se estiverem trabalhando em empresas que não são capazes de inovar, irão ter suas próprias carreiras prejudicadas.

Apesar de que começar a empreender é cada vez mais estimulado e acessível, não é razoável esperar que todos se aventurem a empreender suas startups conhecendo a baixa probabilidade de ser o “bilhete premiado”.

Ao mesmo tempo, de forma muito prática, os profissionais em geral sabem que se não forem agentes de inovação dentro de suas próprias profissões e nas empresas em que atuam, suas carreiras estarão muito limitadas, e talvez até interrompidas em espaços de tempo cada vez mais reduzidos.

Atenta a esse fenômeno, a 100 Open Startups propôs um grande exercício de matchmaking entre profissionais de mercado, em geral, executivos de médias ou grandes empresas, e startups.

Neste exercício, executivos de mercado são estimulados a conhecer pelo menos 100 startups de sua área de atuação e interesse e realizar uma rápida avaliação online sobre esses projetos. Em seguida, têm a oportunidade de se reunir com, pelo menos, 10 startups que lhes despertem maior interesse a fim de estabelecer algum tipo de relação.

Um dos nossos maiores objetivos é recriar a Lei 100-10-1 das startups para cada profissional. Assim como os fundos de venture capital, todo profissional deve conhecer 100 startups do seu setor ou área de atuação e interesse.  Aprofundar a sua análise e estabelecer uma relação com pelo menos 10 startups, como forma de constituir um portfólio de inovação. Com isso, ter a experiência de colaborar com ao menos uma startup de sucesso no mercado.

Ainda que a empresa na qual esse profissional trabalhe não seja capaz de inovar, ele, enquanto especialista, pode se envolver em processo de inovação das startups do ecossistema de que faz parte. Com a atenção, conhecimento e esforço depositados nesse exercício, esse indivíduo, agora mais capacitado, torna-se, consequentemente, veículo de inovação na empresa em que originalmente trabalha. Além disso, naturalmente, estes profissionais envolvidos no relacionamento com startups, têm o potencial de se tornarem empreendedores mais capacitados pela experiência adquirida, ou ainda, se tornarem investidores-anjos ou mesmo em plataformas de crowd-funding.

Mas, o que acontece com as startups que não se tornam “unicórnio”?

Ao receber apoio de profissionais de mercado, os empreendedores que já se aventuraram na criação de suas startups têm a possibilidade de receber apoio, feedback, validar mais rapidamente suas ideias e expandir suas conexões.

O sucesso de empreender não está restrito ao fato de criar uma empresa valiosa, mas é também um processo de desenvolvimento profissional. É sabido que raramente um “unicórnio” é criado por empreendedores de primeira viagem.

No mundo de criação de startups não existe “bilhete premiado”, mas sim uma jornada em que empreendedores atingem o sucesso após contar com o apoio de centenas ou milhares de pessoas que formam o ecossistema de inovação em que estão inseridos.

No Brasil, segundo dados do IBGE de 2015, existem mais de seis mil empresas com mais de 500 funcionários. Considerando o impacto que as startups tiveram nas economias dos países mais maduros, podemos esperar que 20% dessas empresas sejam substituídas por startups que estão nascendo agora e que os demais 80% certamente somente se manterão no mercado se colaborarem, investirem ou comprarem outras startups.

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