Inovação Aberta e o conceito de Redes Distribuídas

Bruno Rondani

Há cerca de 3 anos, Anderson Rossi, professor da Fundação Dom Cabral, me perguntou durante um painel sobre inovação aberta, qual a relação do tema com as chamadas “redes de inovação”.

Dois meses atrás, após termos focado nas últimas duas edições do Open Innovation Seminar o tema “Crescimento Sustentável apoiado em Redes de Inovação”, um empresário muito envolvido com o tema da inovação me perguntou: mas alguma “rede de inovação” de fato existe e, se existe, “funciona”?

Não teria dificuldade em responder essas duas perguntas, inclusive com exemplos, não fossem as recentes conversas que mantive com Salvatore Iaconese e Augusto de Franco. Ao explicar-lhes o conceito que estávamos trabalhando nos recentes programas do Wenovate (open innovation, challenge-driven innovation, triple helix) ambos me responderam de forma muito assertiva: “mas isso não é rede”.

Eles me explicaram o conceito de redes distribuídas onde a livre-interação peer-to-peer é o atributo fundamental e como a moderação e a centralização das iniciativas chamadas de open innovation não constituem redes distribuídas e apenas reforçam o velho paradigma da inovação vertical e linear. Ao tratar do conceito de redes aplicado a empresas, Augusto de Franco enfatiza que as empresas criaram estruturas hierárquicas e fechadas que bloqueiam o livre fluxo de ideias e interações que fazem com que elas percam a capacidade de inovar.

Respondi argumentando que o movimento de abertura do processo de inovação das empresas era condição necessária para a constituição de redes distribuídas de inovação. Eles insistiam em reforçar que a cocriação a partir da livre-interação é o que estimula a criatividade e permite a geração espontânea de ideias e não era isso que as empresas estavam fazendo ao adotar práticas de inovação aberta.

A descrição que faziam, apesar de muito interessante, ressoava na minha cabeça: “mas isso não é inovação”. Ideação e criatividade são parte do processo, inovação exige ativos complementares como a alocação de recursos para seu desenvolvimento e disseminação que um ambiente de cocriação e uma rede distribuída provavelmente não conseguirão suprir.

Em uma economia capitalista, quem detém os recursos e as posições de mercado, em geral fundos de investimentos e grandes corporações são os tomadores de decisão e para decidir a alocação desses recursos eles precisam de projetos de inovação financiáveis e não apenas de ideias. Enquanto o crowdfunding engatinhasse e representasse parcela ínfima dos investimentos de inovação, não haveria como contar com as redes distribuídas como o novo locus da inovação.

Enfim, para sair do debate teórico e testar as ideias na prática, resolvemos fazer algumas experimentações. Nunca fui simpático à prática explorada por empresas que publicam desafios dos chamados seekers para uma comunidade pré-cadastrada de solvers. Tampouco eu era muito simpático às competições de planos de negócios como estímulo ao empreendedorismo.

O primeiro para mim traz um problema da estratégia empresarial. Se a solução inovadora está disponível no mercado e é possível acessá-la a partir de chamadas públicas (ou semi-públicas) ela deixa de ser um recurso estratégico, pois é disponível também para seu concorrente. Não me surpreendeu ouvir dos principais praticantes dessa modalidade de open innovation que, apesar de muito interessantes, elas só produziram inovações incrementais.

No segundo caso, como bom aluno de Saras Sarasvathy, não me entra na cabeça que, ao simular o processo real de investimento de fundos de venture capital em competições que excluem os participantes na mesma proporção que nos casos reais, estejamos de fato ensinando muito sobre empreendedorismo aos empreendedores. Ao fazer isso, estamos na verdade condicionando empreendedores à linguagem e estruturação de projetos nos moldes esperados pelos gestores de fundo, dando reconhecimento àqueles que se apresentam melhor a essa indústria.

Com essas indagações em mente, assumi a coordenação da 8ª edição do Desafio Brasil, competição de empreendedorismo de alto impacto, promovida pela Fundação Getúlio Vargas. Fazendo-me valer de uma criativa “cláusula de inovação” em meu contrato com a FGV, que me obrigava a propor “inovações significativas” ao programa, propus incorporar ao Desafio Brasil o conceito de “rede de inovação”.

Para tanto, planejamos dois novos pilares no programa: (1) a criação de um ambiente de livre-interação entre os participantes – ambiente de cocriação e (2) a possibilidade de outros parceiros lançarem desafios de inovação aos empreendedores como forma de orientar os empreendimentos a questões de seu interesse – open innovation. Além disso, nós nos impusemos como objetivo aumentar o impacto da competição atraindo mais empreendedores e fazendo com que eles tivessem a oportunidade de aproveitar mais o processo de capacitação em cultura de venture capital, dando-lhes mais oportunidades de aprendizado antes de serem eliminados da competição.

A primeira medida adotada foi buscar uma plataforma de software que permitisse a interação entre os participantes e que gerisse os diversos fluxos propostos (cocriação, competição e desafios de inovação) de forma paralela e sinérgica. Definida a plataforma, criamos uma primeira chamada aos empreendedores para popularem o ambiente de cocriação com suas ideias ou submeterem suas propostas na competição.

Não oferecemos nenhum prêmio específico e não criamos nenhuma regra ou processo de interação para aqueles que optavam por publicar suas ideias via cocriação. Simplesmente liberamos a plataforma para cadastro espontâneo de empreendedores interessados em cocriar ideias com outros empreendedores. Para nossa surpresa, ao término do primeiro prazo estipulado de 45 dias, recebemos um número idêntico de ideias de startups para cocriação e propostas para a competição. Foram cerca de 380 startups cadastradas para a competição e 370 para a cocriação. Nesse momento o sistema atingiu mais de 1.500 empreendedores.
Ao término desse primeiro prazo, reforçamos para os participantes que ajudassem as 370 ideias publicadas para cocriação com comentários. Demos um prazo de outros 28 dias para essa livre interação e para que novas startups se cadastrassem na competição. Estimulamos que quem estivesse na competição lesse as ideias dos outros e fizesse comentários e quem estivesse no ambiente de cocriação amadurecesse sua ideia para participar da competição.

O resultado foi que atingimos 1.219 startups, sendo 917 startups cadastradas na competição e 550 publicadas para cocriação, ou seja, 302 optaram por se manter apenas no ambiente de cocriação. Em termos de interações foram 1.400 comentários divididos entre 344 ideias que chamaram a atenção dos demais empreendedores, fazendo com que 248 também resolvessem aderir à competição. Nesta etapa participavam do processo 3.400 pessoas.

Ao mesmo tempo, apresentamos esses resultados para empresas e outras instituições lançarem desafios de inovação em nossa rede. Esse movimento atraiu cinco desafios de inovação publicados por parceiros interessados na comunidade de empreendedores do Desafio Brasil. Os parceiros teriam 25 dias para atrair empreendedores a propor soluções para seus desafios. Na primeira semana de publicação dos desafios de inovação, os parceiros receberam ao todo 150 propostas, demonstrando que há também um grande interesse por parte dos empreendedores de interagir com essas organizações. Com os desafios de inovação abertos, o número de participantes continuou a aumentar, passando dos 4.000.

É difícil tirar alguma conclusão definitiva sobre essa experiência ainda incompleta, mas os números que atingimos (e não estamos avaliando qualidade ainda, mas sim o engajamento) mostram que mudando o processo de uma competição de plano de negócios e abrindo outras opções de fluxo de ideias como um ambiente de livre interação (cocriação) e desafios de inovação (open innovation/challenge driven), conseguimos mobilizar um número muito maior de participantes e gerar colaboração entre eles. Para efeito de comparação, na sétima edição do Desafio Brasil foram 364 startups qualificadas envolvendo um total de 1.543 empreendedores.

Continuo a acreditar que o locus de inovação é a empresa. E voltando a falar de empresas, acredito que a inovação pode sim ser potencializada a partir da livre interação (cocriação) entre colaboradores e comunidade externa, mas continuo a acreditar também na importância dos processos de inovação robustos, capazes de integrar livre geração de ideias, com avaliação, implementação e disseminação da inovação.

A livre interação tem um papel fundamental na formação de uma cultura criativa necessária para a inovação, ao passo que os processos de inovação têm um papel fundamental de permitir que ideias se transformem em projetos financiáveis para que os “detentores dos recursos”, complementares à inovação, possam tomar a decisão de investimento.

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