Jovens engenheiros criam empresa para articular pós-graduação, agências de fomento e empresas; radar meteorológico é primeiro caso de sucesso

Matéria publicada em  Universia Brasil
Por Adriana abelhão

Os jovens engenheiros Bruno Rondani, Henri Okajima, Rafael Levy e Fabiano Armellini decidiram seguir o caminho do empreendedorismo. Em janeiro de 2005 assinaram quatro contratos de prestação de serviços de desenvolvimento e consultoria com a Omnisys Engenharia Ltda (leia mais), que fabrica equipamentos para radares. Esse é o contrato de estréia da Allagi Consultoria Empresarial, mas seu principal objetivo é gerar novos negócios de base tecnológica na área de engenharia eletrônica a partir de parcerias com universidades, institutos de pesquisa e empresas.

Os quatro amigos se conheceram ainda no tempo de faculdade – Bruno, Henri e Levy são da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação (FEEC) da Unicamp e Fabiano da Escola Politécnica da USP, e participaram do projeto para desenvolvimento do radar meteorológico na Omnisys. O primeiro a chegar foi Bruno, que conheceu Luiz Henriques, presidente da Omnisys, na França, quando estagiava na Thales, líder europeu em sistemas eletrônicos de defesa. De volta ao Brasil, Bruno fez uma visita à Omnisys e conseguiu um estágio. “Na Thales fiz parte de um projeto para desenvolvimento de processadores de radares e na Omnisys, para modernização do transmissor, que seria fornecido também para a empresa”, conta. Ele fazia o estágio de olho numa oportunidade para voltar à empresa francesa, até saber que a Omnisys pretendia desenvolver um radar meteorológico.

O radar meteorológico
A Omnisys tinha um projeto para desenvolvimento de um radar meteorológico em parceria com a Fundação Aplicações de Tecnologias Críticas (Atech). Bruno já sabia disso e foi buscar informações junto ao reitor da Unicamp, Carlos Henrique de Brito Cruz. “Fui até lá tentar vender o radar. Brito foi presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e eu sabia que a fundação tinha interesse em comprar radares meteorológicos”, explica. Ele conhecia os projetos do Sistema Integrado de Hidrometeorologia do Estado de São Paulo (Sihesp) e sabia que a Fapesp tinha interesse em financiar radares para o sistema. Brito o aconselhou a procurar o Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) da Fapesp e a fazer parcerias junto à Unicamp para bolsas de mestrado, voltadas para o desenvolvimento do radar. “Apresentei essas possibilidades à Omnisys e eles acharam ótimo. Disseram: pode fazer”, recorda Bruno.

A partir daí, junto aos engenheiros da empresa, Bruno redigiu os textos, preparou os documentos e apresentou a proposta à Fapesp, que foi aprovada. Quando o resultado do Pipe saiu, a Omnisys estava assinando a parceria com a Atech. Luiz Henriques disse à nossa reportagem que o mérito da realização do financiamento é de Bruno. A operação representou uma significativa economia de custos para o projeto. A Omnisys estava decidida e concretizar a parceria e com o Pipe conseguiu recursos a juro zero. O projeto chegou ao final e um resultado concreto dessa operação é a compra de um radar meteorológico Omnisys-Atech pelo o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da USP. O IAG faz parte do sistema Sihesp e o radar, que é móvel, será utilizado para melhoria dos diagnósticos de prevenção de enchentes no Planalto Paulista e na Serra do Mar.

Bruno foi responsável também pelo recrutamento de oito engenheiros para a equipe que desenvolveu o projeto. “Selecionei e montei a equipe, entre mestrandos da Unicamp e USP. Essa é uma operação mais complexa do que uma seleção normal, onde você escolhe currículos e contrata, porque envolve também parcerias com as universidades”, explica Bruno. A proposta era levar a prática de desenvolvimento do radar para o mestrado dos engenheiros e, para isso, foram feitos convênios entre as universidades e a Omnisys. A Unicamp e a USP disponibilizariam alunos, que contariam com a orientação de seus professores, para atender a uma demanda da empresa. Em troca, a Omnisys pagaria uma bolsa aos alunos, num valor maior que o pago pelas agências de fomento. As bolsas eram de dois mil reais, um pouco mais do que pagava, na época, o estágio da Embraer.

Nem Mercedes-Benz, nem Embraer
Mas não foi tão fácil para Bruno trazer seus amigos para ao projeto. Fabiano fazia um estágio na Mercedes-Benz. “Eu me perguntava, o que é a Omnisys? Na Mercedes eu tinha uma carreira que poderia estar me esperando”, relembra Fabiano, que ao final, deixou a montadora para participar do desenvolvimento do mecanismo da antena do radar meteorológico. “Nós vimos uma oportunidade de trabalhar em pesquisa voltada para a indústria, um meio termo entre a academia e o setor empresarial, o que nos atraiu”, explica Fabiano.

Outra opção era participar do processo de seleção de trainees na Embraer. “Aquilo estava nos chamando, mas nenhum de nós fez a prova”, conta Bruno. A estrutura em pesquisa e desenvolvimento que a Embraer oferece é o sonho de todo engenheiro em início de carreira, isso sem falar do peso no currículo. “O programa é muito bom, teríamos uma formação excelente, a estrutura é maravilhosa, mas o problema é que seríamos um entre os demais. A Embraer hoje fabrica aviões e pensamos: vamos ajudar a Omnisys a desenvolver radares”, argumenta Bruno e completa “nossa experiência foi mais rica. Vivenciamos como se constrói uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento e como são feitas as negociações com os clientes”.

Levy participou do projeto de desenvolvimento da antena do radar, Bruno do transmissor e Henri está desenvolvendo em sua tese de mestrado, com bolsa do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), uma nova tecnologia para processamento de sinais para o receptor do radar. Ele já era sócio de Bruno, numa empresa que se transformaria depois na Allagi.

Alla Garanzia della Innovazione
Segundo Henri, o nome Allagi tem como origem a palavra allaso, do grego antigo, que significa transformar. “Enxergamos potencialidades de desenvolvimento no mercado, seja para um produto ou serviço, e queremos transformar o que vemos em ato”, explica ele. Existe uma outra versão para o nome da empresa, “Alla Garanzia della Innovazione“, brinca Bruno, que é descendente de italiano. “Nosso trabalho é achar o dono da idéia, uma fábrica, alguém para comprar, equipe para desenvolver, financiamento público ou privado e viabilizar o negócio”, detalha Bruno, que quer repetir o processo de desenvolvimento do radar meteorológico em outras empresas. “Assim como fiz na Omnisys. Montei uma equipe vinculada à universidade, busquei financiamento na Fapesp e fiz contatos para comercialização do produto. Essa é nossa vocação”, completa.

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