Programa Ciência sem Fronteiras favorece união de academia e mercado

Governo a incentiva o desenvolvimento de experiências que não sejam puramente acadêmicas para favorecer a inovação

Ao longo de quatro anos, 75 mil bolsas para estudantes e pesquisadores. O número impressiona, mas a ambição da meta estabelecida pelo Ciência sem Fronteiras vai além. Lançado pelo governo federal no ano passado, o programa para internacionalização da ciência brasileira por meio do intercâmbio e mobilidade internacional tem como um de seus fundamentos o incentivo à inovação.

Para cumprir esse desafio, propõe a criação de experiências que não sejam puramente acadêmicas. O objetivo é enviar pessoas para o exterior para projetos que se relacionem às demandas da indústria de modo a, quando voltarem para o Brasil, estarem aptas a ajudar o país a consolidar seu crescimento econômico. O programa é iniciativa conjunta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério da Educação, por meio de suas respectivas instituições de fomento – CNPq e Capes.

“É uma preocupação antiga estimular a inovação no país para aumentar nossa competitividade. A própria mudança no nome do ministério, que hoje é Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, mostra o momento pelo qual o Brasil vem passando”, acredita o diretor de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do CNPq, Guilherme Sales Soares de Azevedo Melo. “Todas as ações ligadas ao órgão precisam agora ser voltadas para a inovação e, por isso, a integração entre a academia e as empresas é um direcionamento prioritário”.

O trabalho integrado, que já é comum em muitos países, tem papel singular para que o investimento que o Brasil está fazendo apresente resultados. Parte importante das bolsas oferecidas prevê a realização de estágios em empresas no país que receberá os estudantes ou a participação em projetos de pesquisa e desenvolvimento ligados a essas organizações.
Para o diretor de relações internacionais da Capes, Márcio de Castro Silva Filho, a experiência tem tudo para trazer resultados de curto prazo. “Os alunos que estão indo para o exterior verão estruturas de ensino diferentes e terão contato com laboratórios e estágios que certamente culminarão em um processo transformador. Além de repensarem a própria universidade, terão uma visão ampliada  da experiência com os mercados”, diz. Segundo ele, a partir de março, empresas como Boeing e Microsoft já irão receber os primeiros brasileiros.

Uma das estratégias do governo para estimular que os intercâmbios atendam a essa integração é a inclusão do setor privado na criação dessas bolsas. Ao patrocinar os benefícios, as empresas podem não apenas escolher áreas que interessem a seu setor produtivo como criar condições para que sejam desenvolvidos estágios e pesquisas de interesse.

A Vale está bancando 1.000 bolsas com um investimento total de US$ 27,5 milhões em quatro anos. Segundo o gerente geral de parcerias e recurso do Instituto Tecnológico Vale, Sandoval Carneiro Júnior, a empresa investe nos estudantes de olho na criação de mão de obra qualificada que possa ser incorporada no futuro. “Em um primeiro momento, estamos focando na graduação, e nossas bolsas preveem atividades de iniciação científica e estágios em áreas onde a Vale possui operações, como o centro de pesquisa em níquel e cobre baseado em Toronto, no Canadá”, relata. A empresa também pretende criar bolsas para pós-doutorado com o objetivo de atrair pesquisadores seniores para seus institutos de pesquisa no exterior.

Outra estratégia da empresa tem sido criar benefícios para que seus funcionários também tenham acesso a essa experiência. “É uma forma relevante de proporcionar treinamento para técnicos que não necessariamente têm uma vasta trajetória acadêmica”, diz.

A Petrobras é outra importante organização que está envolvida no programa, com 5.000 bolsas de estudos. A gerente de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Petrobras, Mária Alves, explica que, além de estudar uma forma de envolver diretamente os alunos contemplados, a participação da empresa visa o desenvolvimento do setor de óleo, gás e biocombustíveis como um todo no país. “Dentro das áreas prioritárias selecionadas pelo governo federal, escolhemos aquelas que estão mais ligadas às nossas atividades. Assim, os bolsistas voltarão para o Brasil aptos a trabalharem em diversas etapas da nossa cadeia de valor, seja como funcionários, seja como fornecedores”, diz.

Para ela, a internacionalização é extremamente importante para o setor. “Nós lidamos com um negócio altamente tecnológico, atuando em profundidades e distâncias cada vez maiores. Isso cria desafios que são superados com pesquisa e desenvolvimento contínuos, de modo que é importante contar com profissionais que tenham conhecimento ampliado na área”, afirma.

Além de promover o intercâmbio de estudantes de graduação e pós-graduação brasileiros, o Programa Ciência sem Fronteiras prevê a atração de pesquisadores do exterior que queiram se fixar no Brasil ou estabelecer parcerias nas áreas prioritárias. São cerca de 20 áreas definidas como estratégicas para o desenvolvimento do país, abarcando principalmente setores tecnológicos e engenharias.

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