Programa inovador de colaboração facilita intercâmbio internacional

Marcelo Prim, consultor em inovação da Allagi

O programa Ciência sem Fronteiras já se destacava pelo número inédito de bolsas de pesquisa no exterior e por abrir espaço para a integração acadêmica – chave para a alavancagem do ensino universitário que o Brasil tanto precisa. Agora, tem se mostrado também um âmbito promissor para avançar na colaboração entre academia e empresas, impulsionando a inovação no relacionamento entre pesquisadores e empresas de países diferentes.

Quem tem experiência com o meio acadêmico sabe que a oferta de bolsas resolve apenas um dos problemas do pesquisador. Um dos principais desafios para realizar o intercâmbio está no contato com os grupos de pesquisa alvo que irão orientar o desenvolvimento da pesquisa.

Nos moldes atuais, o pesquisador interessado precisa mapear as instituições internacionais que contemplem linhas de pesquisa similares à sua, descobrir os principais nomes que lhe interessam dentro dessas universidades, fazer contatos por conta própria e elaborar individualmente uma proposta de plano de pesquisa até conseguir que o pesquisador estrangeiro aceite orientar seu trabalho.

Uma iniciativa da Saab, por meio do Centro de Pesquisa e Inovação Sueco Brasileiro (CISB), traz evidências de que é possível melhorar, e muito, esse processo. A empresa abriu edital junto ao CNPq com vagas para quatro subtemas de interesse. Em vez de simplesmente esperar pelas candidaturas, a empresa e o CISB fizeram um levantamento prévio das principais instituições brasileiras e suecas que poderiam ter interesses em comum. Nas universidades suecas, mapearam quantas vagas e quais áreas estariam disponíveis para receber os alunos brasileiros e, no Brasil, realizaram encontros com universidades de todo o país divulgando a oportunidade.

A grande inovação, porém, veio com a criação de uma plataforma online capaz de colocar todos esses atores em contato de uma só vez. Trata-se de um processo inédito criado para facilitar o encontro entre pesquisadores brasileiros e grupos de pesquisa suecos, dando a oportunidade para a discussão e colaboração para a criação de projetos de pesquisa antes de serem submetidos para seleção.

Esse contato é essencial também para o objetivo maior do programa: que os pesquisadores voltem ao Brasil depois do intercâmbio para gerar inovações em solo nacional. Justamente por meio dessa experiência, as propostas podem ser discutidas a partir de diversos pontos de vista, e as organizações que têm acesso ao portal, como CISB, CNPq e Forças Armadas, além da Saab, podem contribuir para o debate e o alinhamento entre os interesses dos atores envolvidos na hélice tripla dos dois países.

Em uma primeira fase, os pesquisadores publicaram suas ideias ou projetos de acordo com a área de pesquisa de seu interesse. Os demais participantes puderam visualizar a descrição geral das propostas iniciais, permitindo assim que colaborassem uns com os outros e dessem sugestões. Na próxima etapa, os pesquisadores suecos, que serão os orientadores dos futuros bolsistas, avaliam as propostas das áreas que lhes dizem respeito, selecionam os que se encaixam ou não e ajudam os pesquisadores a redigir propostas mais fortes e coerentes com o programa. Todo esse processo não faz parte da seleção das bolsas. É um espaço virtual para o amadurecimento das propostas, que posteriormente precisam ser submetidas para avaliação do CNPq.

Até a última semana de abril, a plataforma contava com cerca de 360 participantes. Apesar da forte adesão, uma das perguntas que pode surgir é por que os pesquisadores brasileiros iriam colaborar uns com os outros se, em última instância, serão concorrentes. A resposta é que as experiências com trabalhos colaborativos mostram que, muito provavelmente, aqueles que se apoiaram mutuamente terão mais chances de serem aprovados, justamente porque, em vez de se limitarem à competição, somaram competências para entregar propostas mais coerentes, maduras e competitivas.

Esse modelo traz para o universo da seleção para intercâmbio acadêmico os princípios da inovação aberta. Trata-se de uma relação em que todos se beneficiam: os pesquisadores brasileiros, porque contam com uma facilidade de acesso aos orientadores suecos; as universidades suecas, porque podem ajudar os intercambistas brasileiros a se adequarem ao perfil de pesquisador que buscam; a Saab, porque reúne em seu programa um grupo mais bem preparado; e o Brasil, porque aumentam as chances de que essas pesquisas, bem estruturadas desde o nascimento, tragam frutos positivos para a inovação do país.

Como ganho adicional, cria-se uma rede de contatos. Não há como o Brasil pensar em gerar troca de conhecimento ou transferência de tecnologia sem que essa rede, formada por massa crítica de ambos os lados, exista e se interesse por esses objetivos. Nesse estágio avançado, o perfil colaborativo desenvolvido desde a elaboração das propostas, também irá se mostrar crucial.

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