Da ciência à inovação sem fronteiras

Bruno Rondani, diretor executivo do Centro de Open Innovation – Brasil

O programa Ciência sem Fronteiras abriu um precedente histórico na política pública brasileira de educação e pesquisa com vistas à internacionalização e ao delineamento formal do estímulo à inovação brasileira. O governo está investindo pesado em bolsas de intercâmbio e deve convocar cerca de 100 mil estudantes a aproveitá-las – sendo 75% dos benefícios bancados por recursos públicos e 25% pelo empresariado. Apesar da magnitude do programa, seu desempenho está aquém do esperado. Isso porque falta à maioria das bolsas extrapolar os muros da academia.

É clara a importância de colocar tantos estudantes brasileiros em contato com universidades de todo o mundo, formando no país um contingente de pessoas com influências diversas e experiência em instituições de ponta. O avanço resultante da vivência internacional e intercâmbio de conhecimento é vital para o avanço científico do país. A universidade é um terreno fértil de novas criações e construção de conhecimentos e deve continuar sendo estimulada.

Contudo, os resultados do trabalho desenvolvido no âmbito acadêmico só irão se converter em inovação quando transformados em produtos ou serviços que resolvam demandas de mercado ou criem novos nichos para exploração comercial. Apenas quando acompanhados de um modelo de negócios lucrativo e capaz de atrair o público é que os estudos acadêmicos se convertem em inovação e elevam o desempenho do país em competitividade e crescimento econômico. E alcançar o mercado é uma especialidade do setor empresarial. Sem a participação da indústria, o ciclo não se completa.

Para dar sequência à equação iniciada pelo governo federal, faz-se urgente o envolvimento das empresas no Ciência sem Fronteiras. Se o Brasil aproveitar a disponibilidade de recursos públicos atual para criar uma nova geração de profissionais – que entendam que a soma dos esforços acadêmicos e empresariais pode ser a geração de negócios altamente competitivos –, o país terá aproveitado de fato o momento economicamente favorável que está vivendo.

Vale reconhecer a participação da iniciativa privada que já ocorre. Quando o governo lançou o programa, a resposta de algumas organizações foi imediata, como Febraban, CNI, Petrobras e Vale. Porém, a participação ainda está aquém do que pode ser. Muitas bolsas têm sido oferecidas para intercâmbio unicamente acadêmico.

O critério de seleção dos estudantes deve ir ao encontro dos planos de investimentos comerciais de médio prazo das empresas que os patrocinam. Além disso, deve favorecer um modelo de intercâmbio que combine pesquisa acadêmica com vivência empresarial no exterior. Ao retornarem ao país e completarem sua formação, esses profissionais serão peças valiosas para a inovação nessas empresas ou em universidades. Com o aprendizado adquirido, poderão abrir as portas – onde quer que estejam empregados – para parcerias e ajudarão a disseminar no Brasil a cultura de inovação e cooperação interinstitucional. Além disso, o networking estabelecido pode trazer benefícios futuros com estabelecimento de acordos e negócios internacionais.

O importante é entender que a chamada para a participação da indústria não tem como objetivo final fazê-la bancar financeiramente as 25 mil bolsas que a ela se destinam. Desacelerada e já sobrecarregada por impostos e altos custos produtivos, só faz sentido para a indústria ingressar nesse projeto se ele for encarado como investimento. É importante formar profissionais aptos para trabalhar na busca e produção de pesquisas que sejam de seu interesse e que gerem oportunidades de absorção – seja por meio de empresas brasileiras querendo capacitar seu capital humano, seja por meio de multinacionais dispostas a abrir seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento no país. O que falta para as empresas é entender que envolver-se no programa é investir em si mesmas e, a reboque, ajudar a aceleração da economia brasileira

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