Debates sobre inteligência, transferência e valoração de tecnologia

O processo de inovação aberta traz diversos benefícios, mas também desafios. Um deles é gerir a propriedade intelectual. Há muitas formas pelas quais empresas, universidades e institutos de pesquisa podem trabalhar em parceria e, em cada caso, há um modo de lidar com questões relativas a patentes e royalties. Nos processos colaborativos que geram patentes, reside um dos aspectos mais debatidos e que ainda provoca uma série de incertezas.

“Inovação Aberta não significa Inovação Livre, logo, implica em propriedade (intelectual) que deve ser gerida em todas suas formas (marcas, patentes, direitos autorais) de forma estratégica, pois muito mais do que uma ferramenta jurídica , a PI é um assunto de negócio e deve ser bem planejada. Fazem parte desse planejamento uma caracterização do setor em que a organização está inserida e um levantamento de possíveis parceiros de produção, desenvolvimento e comercialização, assim como analisar qual é o potencial tecnológico da inovação”, afirma o coordenador de Inteligência Tecnológica do grupo espanhol em propriedade intelectual Clarke Modet, Cláudio Mazzola.

Ele explica que, em uma organização, a boa gestão da propriedade intelectual implica em ações que permeiam todo o ciclo da inovação, da pesquisa ao mercado. Antes de decidir investir em determinada pesquisa, é importante que se faça um estudo aprofundado para descobrir, por exemplo, se já existem soluções semelhantes protegidas ou não por patentes e se é mais vantajoso explorar o que já existe ou começar um processo do zero.

Esse estudo do panorama tecnológico e competitivo é um facilitador para o momento de negociar a exploração da patente e assim decidir se ela será feita de forma exclusiva ou não, em quais países o produto será protegido e como será feita sua manutenção. É uma decisão importante porque, apesar de terem um potencial de geração de renda, as patentes também resultam em gastos para o detentor. “Apenas uma parte das soluções protegidas por patentes se realizam por motivos estratégicos, preferencialmente competitivos – nem todas as patentes são comercialmente viáveis. Enquanto está na prateleira e fora do mercado, a patente representa exclusivamente uma despesa. É apenas a partir de sua exploração defensiva, monitorando concorrentes e realizando licenciamentos que ela poderá reduzir perdas ou se reverter em lucros”, aponta Mazzola.

Para a gerente de consultorias da Biominas, Isabela Drummond, a área de biotecnologias possui particularidades que muitas vezes tornam essa definição um processo complexo. O período máximo de proteção que uma patente pode proporcionar são 20 anos. No caso da produção de medicamentos, esse prazo é bastante curto. “Na indústria farmacêutica, o ciclo da pesquisa até a exploração comercial dura pelo menos 10 anos. Se a patente é feita em um estagio muito inicial do processo e só chega ao mercado depois de 15 anos, por exemplo, restam apenas cinco para que indústria tenha retorno sobre os investimentos realizados”, ilustra.

Além disso, é alto o risco do investimento. A taxa de iniciativas que completam o ciclo da inovação é extremamente baixa. A probabilidade de uma molécula que está em fase pré-clínica chegar até a aprovação regulatória é de 17%, segundo pesquisas do setor farmacêutico.

Nesse contexto, acertar no processo de inteligência e gerenciar adequadamente as parcerias se torna essencial. Para Isabela, um desafio é garantir que a valoração da tecnologia será adequada: “Há metodologias internacionais de valoração que algumas universidades tentavam usar, mas o resultado é totalmente fora da realidade do setor, pois, quando essa negociação ocorre, normalmente o estágio do produto é muito incipiente frente ao que ainda será preciso investir. Muitas definições sobre o destino comercial da pesquisa só virão ao longo do estágio de desenvolvimento”. Segundo ela, apesar da dificuldade, muitas universidades têm tentado criar novas metodologias para chegar a avaliações mais adequadas, considerando o risco assumido pela empresa e quanto essa empresa quer e pode pagar.

Na opinião de Mazzola, é justamente essa postura de cooperação que precisa ser estimulada. “Os núcleos de inovação tecnológica (NITs) das universidades não podem ser vistos como “concorrentes” das empresas em relação aos acordos de transferência de tecnologia e devem adotar alternativas para facilitar a introdução da solução no mercado. Discutir os recursos que serão gerados com royalties das licenças quando há ainda incerteza do sucesso tecnológico e comercial pode não ser a melhor atitude para o momento (isso vale para ambos os lados). Muitas vezes estabelecer uma relação duradoura de parceria de pesquisa com o setor produtivo pode muito bem deixar para segundo plano as considerações com relação aos royalties de eventuais licenças futuras”. O objetivo do acordo sobre royalties é chegar a um valor justo da divisão do lucro pela exploração comercial da inovação – cobrindo os custos de gestão da patente assumidos pela universidade e permitindo crescimento e novos investimentos por parte da iniciativa privada.

O consultor ressalta que, apesar da necessidade de melhorias nos NITs universidades, cabe às empresas trabalhar de forma mais forte para chegar ao equilíbrio buscado. “A capacidade de gerar novos negócios a partir da tecnologia, em contraposição aos investimentos feitos em pesquisa e os aportes necessários para levá-la ao mercado, é que dita quanto será possível estabelecer uma relação de ganha-ganha. Para ter essa visão, é preciso que o estudo de mercado e o planejamento tenham sido realizados previamente de forma consistente”, diz. “No momento da negociação, a empresa precisa demonstrar para a universidade o racional da estratégia de negócio da tecnologia para decidirem juntos os porcentuais a partir de uma perspectiva mais segura e assertiva. O problema é que, na maioria das vezes, essa preparação não é feita”.

Neste ano, o Open Innovation Seminar OIS 2012 lançará fóruns permanentes de gestão da inovação aberta. O tema “Inteligência, transferência e valoração tecnológica” pautará um dos fóruns.

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