Susanne Ollila: “A inovação aberta se baseia na confiança”


Susanne Ollila, pesquisadora de Gestão Tecnológica e Economia da universidade sueca Chalmers University of Technology.

Susanne Ollila é pesquisadora de Gestão Tecnológica e Economia da universidade sueca Chalmers University of Technology. A pesquisadora vem estudando as implicações da adoção da inovação aberta pelas empresas na Europa e já escreveu diversos artigos sobre o assunto. Trabalhou inclusive em um relatório para a Vinnova, a agência sueca de inovação integrante do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da União Europeia.

Publicado em 2008, o relatório fazia um diagnóstico sobre o entendimento do conceito de inovação aberta e sua aplicação nas empresas do país: “quando escrevemos o relatório, pudemos ver que o conceito de inovação aberta já era bem conhecido e compreendido pelas empresas e seus gestores. Porém, esses profissionais tinham pouco claro e queriam entender melhor quais eram as implicações práticas desse modelo. Percebi que essa era a grande pergunta que precisava ser feita”. Desde então, a pesquisadora vem se aprofundando no assunto e, neste mês, contou algumas de suas percepções ao Centro de Open Innovation – Brasil.

Quais dificuldades as empresas enfrentam ao adotar a inovação aberta?

A inovação aberta apareceu como um termo novo e propondo uma nova lógica que parecia ser muito interessante. De fato é. Porém, se não entendem de forma muito clara o seu significado, as organizações que a adotam podem acabar mal sucedidas nessa incursão. O que percebo é que, na pressa por adotar um modelo melhor, algumas empresas se esqueceram de lições que já eram conhecidas e se portaram de forma ingênua.  Como exemplo, um desafio que é antigo é a questão da parceria. Aliar-se a outras organizações, dividir responsabilidades e resultados é algo que já acontecia e nunca foi uma iniciativa simples. Exige cuidados mesmo quando se entende o benefício de uma postura colaborativa.

Além disso, fazer inovação aberta implica em uma série de mudanças na forma como se encara o próprio negócio. Por exemplo, se tomo a decisão de entrar em uma arena de inovação aberta, tenho que ir sabendo que precisarei compartilhar determinados conhecimentos – e talvez eu não esteja preparado. Para fazer parte disso, é preciso que a cultura de inovação aberta esteja naturalizada na empresa e nas pessoas.

O que mudou com essa transição para a inovação aberta?

De certa forma, as pessoas sempre estiveram dispostas a fazer parcerias com aqueles em quem confiam: fornecedores e clientes, por exemplo. A diferença é que a inovação aberta propõe uma profissionalização maior dessa postura, extrapolando o meio a que se está acostumado. Em uma arena de inovação aberta, por exemplo, é possível que eu venha a trabalhar junto com um concorrente, algo impensável no caso da inovação fechada.

Nesse cenário, como manter pessoas de diferentes lugares motivadas a trabalhar juntas?

O que tenho visto é que, para compartilhar, é preciso haver confiança. Em arenas de inovação aberta, vemos que há um grande desafio. Inicialmente, as pessoas estão acostumadas com a perspectiva da empresa. Mas, quando se tem vários parceiros trabalhando juntos, é uma nova lógica. As pessoas não estão ali por salários e não cumprem ordens diretas. Elas se dispõem a dedicar o tempo delas e a trabalhar naquele grupo por outras formas de engajamento.

Por isso, elas precisam ser estimuladas de outras formas. Elas estão ali criando conhecimento juntas e se sentem mais criativas, conhecem pessoas de interesse para elas. Os motivos variam. E é em encontrar o balanço entre liberdade e controle, cooperação e competição, que está o desafio de gerenciar essas arenas. As pessoas envolvidas acabam se identificando de alguma forma com aquele grupo. No caso de algumas arenas suecas, por exemplo, os desafios em pauta são amplos o suficiente para afetá-las de alguma forma, como pensar como reduzir os acidentes de trânsito, por exemplo.

Até que ponto é possível manter esses processos abertos ao longo da evolução de uma ideia ou processo? Há momentos em que dividir informações se torna crítico?

A confiança e o interesse em compartilhar variam de acordo com o estágio da inovação. O que percebo é que, mais perto dos estágios iniciais da pesquisa e já perto de colocar o produto no mercado as parcerias são mais fáceis. Nos estágios intermediários, a tendência é restringir as parcerias a um grupo menor em quem se deposita plena confiança. Os processos são mesmo feitos de maior ou menor abertura.

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