Empreendedorismo, confiança e inovação

Saras Sarasvathy aponta a relação entre comportamento empreendedor e inovação aberta

Planos de negócios, análises de mercado, estudos de comportamento do consumidor, pesquisas sobre tendências. São diversas as ferramentas às quais empreendedores podem recorrer quando pretendem entender melhor o contexto em que atuam. O problema é quando a informação é tanta e tão determinista que trava uma das características mais marcantes do empreendedor: a tomada de decisão.

 Saras D. Sarasvathy – The Darden School, University of Virginia

Quem afirma isso é a indiana Saras Sarasvathy. Eleita uma das 20 melhores professoras de empreendedorismo do mundo pela revista Fortune Small Business, ela participará do 5º OIS, ministrando o curso “O que gestores podem aprender com empreendedores” no dia 13 de novembro.

Saras se tornou conhecida por estudar o processo de tomada de decisão do empreendedor e desenvolver o conceito de Effectuation. Segundo suas observações, faz parte do perfil empreendedor reduzir a importância de previsões e estudos exaustivos. Ao contrário, a tendência é que o empreendedor – especialmente o mais experiente – privilegie a agilidade.

Para Saras, essa atitude não está presente em grande parte dos gestores nas empresas. E isso, garante, tem impacto sobre a geração da inovação: segundo ela, em um mesmo momento de decisão, gestores que adotam a lógica chamada de Causation estabelecem um objetivo e encontram razões pelas quais é possível atingi-lo. Na lógica do Effectuation, verifica-se o contexto que se apresenta e toma-se a decisão que abra um número maior de possibilidades de atuação no futuro, de modo que mudanças de percurso se tornam aceitáveis. “É essa atitude que torna as empresas mais abertas para a criação de inovações e o estabelecimento de parcerias que podem se tornar vitais para o sucesso”, diz.

Quais as vantagens do Effectuation?
Há duas principais características que mostram porque a lógica de Effectuation se adequada para o empreendedor. Nas entrevistas com empreendedores, percebemos que o apego a predições e estudos não só geram certa impaciência pelo tempo e recursos demandados, mas, também, são encarados como limitadores. Como não acreditam na previsibilidade – ao contrário, aceitam o imprevisto como algo natural –, empreendedores são mais inovadores quando não se deixam tomar completamente pelo que está no papel. Além disso, percebem que só se tem certeza sobre o resultado quando o processo é executado. Por isso, tratam de colocar em prática suas iniciativas tão logo quanto possível, fazendo ajustes conforme a resposta do mercado. Mesmo quando erram, entendem que erraram barato por terem gastado pouco tempo, recursos e esforço tentando prever os resultados.

Esse pensamento não contraria a forma como normalmente funciona a lógica da gestão?
Bom, não estamos dizendo que todas as atitudes em um negócio seguem a lógica do Effectuation. É claro que ter acesso a informações qualificadas é importante e planejar e levar determinados projetos até o fim conforme estipulado faz parte do dia a dia da empresa. Porém, não pode se limitar a isso. Quando gestores são capazes de entender e utilizar a lógica do empreendedor, há um ganho enorme. O método de efeito é mais aberto a criar contatos e parcerias mesmo quando não se tem um objetivo claro de curto prazo e inclui se interessar por novidades que estão fora do foco momentâneo da empresa. Esses conhecimentos e conexões podem ser a chave para negócios cuja oportunidade aparecerá no futuro e diante da qual o empreendedor de efeito reagirá a tempo.

Qual a relação do Effectuation com a inovação aberta?
O processo de Effectuation pressupõe o estabelecimento de parcerias e o trabalho em conjunto. Essa combinação de flexibilidade e timing, bem como a disposição para empreender em conjunto são também os elementos que fazem parte da inovação aberta. Trata-se, principalmente, de uma questão de cultura. O comportamento de efeito só não faz sentido se o empreendedor é extremamente apaixonado por trabalhar sozinho, o que é cada vez menos possível.

Qual é a situação do Brasil em relação a esse comportamento?
Nos países em desenvolvimento, o empreendedorismo tem características peculiares. Há certa defasagem de acesso a informações qualificadas, o que, na prática, aumenta a atitude de Effectuation mesmo entre empreendedores jovens. Em compensação, há também uma tendência à desconfiança. Entre a população de renda mais baixa, até existe cooperação, mas somente entre grupos pequenos, que se limitam a uma esfera de conhecidos íntimos. Já entre as parcelas mais educadas, a competição é muito forte e há grande dificuldade em estabelecer parcerias. Essa barreira é fatal, pois limita a capacidade de inovação e, portanto, o crescimento das empresas.

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