Gestor da Inovação: um maestro de redes de inovação

Profissionais multidisciplinares, vindos de diferentes áreas e líderes de inovação, são cada vez mais valorizados.

Um sal de cozinha utilizando indevidamente um selo de qualidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) foi o que levou a advogada por formação Cristina Assimakopoulosa enveredar pelos caminhos da inovação. Trabalhando no departamento jurídico da universidade e acostumada a lidar com casos ortodoxos, ela se deparou com uma situação que resultou na criação de um núcleo de propriedade intelectual na Unifesp e serviu de pontapé inicial para uma mudança de rumo na própria carreira. Da Unifesp para trabalhar com pesquisa na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(Fapesp), Cristina foi se aprofundando cada vez mais no universo da inovação até cruzar a fronteira da universidade para o setor privado, como analista master de Desenvolvimento Tecnológico da Vale, onde ajuda a viabilizar o desenvolvimento de projetos de pesquisa em parceria com a academia.

“Todos os grupos que conheci no início do movimento de inovação nas universidades são hoje meus interlocutores. É muito importante conhecer os interlocutores, os processos administrativos, a cultura dos dois lados e se livrar de preconceitos. A pesquisa não é muito lenta, apenas sobre coisas etéreas, tampouco a indústria é imediatista e só quer ciência aplicada”, afirma.

Uma advogada no núcleo de inovação de uma das maiores mineradoras do mundo é menos inusitado do que possa parecer à primeira vista. Convocação multidisciplinar e sendo um campo relativamente novo, a gestão da inovação atrai pessoas oriundas de qualquer área de conhecimento. Mais importante que a área de formação inicial, competências como visão sistêmica, pensamento estratégico, noções de marketing, finanças, contratos, conhecimento do negócio de sua empresa e, principalmente, capacidade interrelacional figuram como características-chave para um bom profissional da área.

O coordenador de Projetos e Inovação da AES, Guilherme Favaron, também é um exemplo de multidisciplinaridade. Farmacêutico bioquímico formado pela USP, Favaron começou a trabalhar com pesquisa e desenvolvimento (P&D) desde o primeiroano de faculdade, sendo bolsista de fundações de pesquisa durante grande parte deste período. Depois de realizar um trabalho de seis meses a convite do Departamento de Agricultura dos EUA, voltou ao Brasil para trabalhar numa indústria farmacêutica como coordenador de P&D, cuidando do portfólio de produtos e de projetos inovadores da empresa. Foi quando começou a despertar para a gestão da inovação. “Quando percebi o impacto do que fazíamos e tudo o que influenciava no sucesso de nossas empreitadas, passei a enxergar alguns projetos como partes de um grupo de ações que conduziam às inovações”, lembra.

Hoje, Favaron atua em uma multinacional norte-americana no segmento geração e distribuição de energia elétrica, a AES. Composta majoritariamente por engenheiros eletricistas, um farmacêutico bioquímico na dianteira dos processos de gestão da inovação causa certa estranheza. Segundo ele, “para o gestor da inovação, é mais importante ter as características (conjunto de habilidades e competências) necessárias à função do que a própria formação acadêmica. Essa é fundamental para os demais membros da equipe que compõem o grupo que viabiliza o projeto inovador. Somando a grande importância que as empresas estão dando à inovação e ao grande volume de conteúdo da literatura sobre o tema, está surgindo um profissional que se dedica à gestão da inovação, com um grupo de conhecimentos que, até o momento, poucos cursos provêm”.

Mas, grande parte dos gestores de inovação ainda vêm de áreas mais relacionadas a P&D, como as engenharias. É o caso do consultor em inovação Marcelo Prim. Mestre pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em Gestão de Processos de Negócio e Métodos de Criatividade, é graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Prim tem grande experiência em gestão da inovação, mas afirma que o caminho até chegar onde está foi traçado inicialmente de modo mais intuitivo que consciente. “Nunca pensei em atuar na gestão da inovação, possivelmente, porque ainda não existe um curso específico. Quando comecei a trabalhar, não existia sequer o cargo de gerente da inovação”, lembra.

Tendo atuado no Desenvolvimento Tecnológico da Embraer, liderou projetos de gestão de processos de negócio e desenvolvimento de novas tecnologias estratégicas. Mais tarde, Prim foi gerente do processo de inovação da Natura, atuando como líder do funil de produtos e liderando projetos de melhorias do processo de inovação. Também atuou como gerente do programa de P&D na Sygma Motors, com destaque no projeto da concepção, fabricação e testes de motor a combustão interna para geração de energia elétrica, utilizando etanol e GNV como combustíveis alternativos para a Vale Soluções em Energia (VSE). Atualmente é consultor em gestão da inovação na Allagi Open Innovation Services.

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