Jornalismo da inovação: o desafio de pautar um tema transversal

Taís Ahouagi – Tinno Comunicação

Pense nos veículos de notícia que estão presentes no seu dia a dia. Em quantos dos sites, revistas e jornais que fazem parte da sua rotina, você se lembra de ter visto uma editoria chamada “Inovação”? Lembrar-se de um apenas já seria positivo, mas o mais provável é que nenhum venha à memória, pois ainda são poucos os veículos que reservam espaço exclusivo para o tópico. O chamado “jornalismo da inovação” tem crescido a olhos vistos, mas o tema continua ocupando um não-lugar – ou, melhor, um lugar múltiplo na imprensa.

Dentre os vários contatos que fiz desde que me dedico exclusivamente ao tema, certa vez, uma entrevistada definiu inovação como um lugar de interseção, como aquilo que ocorre quando dois itens aparentemente desconexos se ligam pela primeira vez. Essa ilustração parece fazer ainda mais sentido quando se pensa em como o jornalismo entende a inovação. Para falar sobre o mundo, o jornalismo o divide em gavetas (cultura, política, economia, cidades, tecnologia) – o que de certo modo facilita seu entendimento, mas, também, o limita. É justamente por a inovação se formar na sobreposição, ser multifacetada e transdisciplinar, que uma visão fragmentada tradicional não permite classificá-la.

No dia a dia, o que se vê noticiado são partes da inovação. Quando se quer falar de uma técnica inovadora, a matéria pode aparecer em uma página de tecnologia ou ciência; para abordar o desempenho de empresas inovadoras, jornalistas de negócios se interessarão pelo conteúdo; das diretrizes públicas para incentivo à inovação, a editoria de política se encarrega; ou, para tratar dos resultados financeiros de determinada iniciativa, uma pauta de economia pode surgir. Por outro lado, uma reportagem mais ampla, que se proponha a fazer conexões entre as políticas para inovação, determinado contexto econômico a participação de atores de diferentes esferas no ciclo da inovação terá dificuldade de se encaixar em uma só editoria.

Como acontece com outros temas, a ampliação da cobertura jornalística corre alguns passos atrás da expansão do próprio conceito de inovação. Se até hoje o Brasil inova pouco – é o 49º no ranking criado pelo Fórum Econômico Mundial –, há alguns anos a situação era pior. Consequentemente, o número de pessoas que saberia falar com propriedade – e se interessaria – sobre o assunto também era reduzido.

Na última década é que a cultura de inovação parece vir se expandindo de forma visível entre empresas, universidade e governo. Inseridos nesse contexto, aos poucos os atores da imprensa percebem essa transformação e a traduzem em pauta. Ao mesmo tempo, em um processo cíclico, à medida que aumenta a cobertura da inovação, cresce o valor percebido do tema para o público leitor.

Esse fenômeno se relaciona com o que, nos estudos de Sociologia e Comunicação Social, se chama de interacionismo simbólico. Os acontecimentos têm significados para as pessoas, que constroem e modificam essas significações por meio da interação social e de suas interpretações. A mídia está nesse contexto social, o modifica e é modificada por ele.

Portanto, quando a imprensa percebe a relevância da inovação e a legitima em suas páginas, está reforçando o valor percebido na sociedade sobre o tema. É por isso que já há pesquisadores que afirmam que o jornalismo ocupa um quarto lugar na tão falada tríplice hélice da inovação (governo, empresa e academia).

A comunicação está na base da inovação: para criar e implantar algo novo, é preciso ser capaz de formular entendimento a respeito dessa novidade por meio da linguagem. É somente através da comunicação que o que é novo encontra aceitação entre as pessoas e organizações, é questionado, aprimorado e ganha respaldo. Dentre as diversas formas de comunicação, o jornalismo, especificamente, se sobressai. Com a expertise de transportar para a linguagem cotidiana fatos ocorridos em meios especializados, quando abordam inovação, os jornalistas são os atores que ajudam a difundir em grande escala determinados entendimentos. São, então, o pé que pressiona o acelerador para a expansão de uma cultura de inovação.

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