A inovação no core da política econômica

Carlos Américo Pacheco tem amplo currículo na academia, de títulos a cargos de liderança. Sua visão, porém, vai muito além. O atual reitor do ITA é nome de peso nas discussões sobre os rumos da inovação no país. Para ele, não há dúvidas de que o tema precisa penetrar, com urgência, na agenda da política econômica brasileira. Confira abaixo alguns trechos da entrevista que concedeu ao boletim Inovação Aberta.

Desafios para a inovação há dez anos

Já existia uma discussão pública importante sobre a inovação na década passada, mas os instrumentos públicos eram fracos em termos de subvenção e de enfatizar a pesquisa mais aplicada. A Lei de Inovação trazia uma proposta de cooperação implícita, mas existia uma dificuldade para obter recursos, já que ainda estávamos estruturando a receita dos fundos setoriais, que não tinham ainda comprovado seu potencial. Tínhamos saído, em 1997, da redução dos incentivos para as empresas, no meio da crise fiscal, e houve uma recuperação em 2002, mas ainda era tímida. Havia uma efervescência do tema da inovação, porque a Lei da Inovação estava em  debate em 2001 e 2002 no Congresso. Em 2004, ela foi considerada decisiva e importante. Mal ou bem, houve enorme esforço de usar o arcabouço legal para buscar caminhos novos.

A melhora dos instrumentos só ocorreu mesmo com a Lei do Bem, que se baseou na legislação anterior e ampliou os incentivos à inovação. Sabemos que a Lei do Bem tem todos aqueles defeitos, que só beneficia as empresas com lucro real, que abrange um universo pequeno de empresas, que não atinge as empresas menores, etc. Mas melhorou muito comparativamente. Ela atinge as grandes empresas, o que tem um efeito importante sobre a cadeia produtiva.

O interessante é perceber que esse histórico representou um esforço de aprendizagem institucional. A Lei de Inovação também tem dificuldades e é mais generosa no discurso do que na prática, mas gerou uma mudança de conduta em que se entendeu que o relacionamento e a cooperação são benéficos para todos os lados.

Em relação aos recursos, há dez anos o orçamento dos fundos era de R$ 300 milhões e a estimativa era de alcançar R$ 1 bilhão. Hoje, arrecadam-se cerca de R$ 4 bilhões. Como estratégia de articulação, que previa um alinhamento entre setor público e privado, criação de um comitê gestor etc., pode não ter funcionado tão bem, mas não há dúvida de que se provou como fonte de recursos.

Desafios hoje

Agora, há um consenso claro – público e privado – de que a inovação é agenda empresarial. Precisamos de uma política industrial e de instrumentos econômicos para a inovação. Até agora, temos colocado instrumentos de fomento à ciência, mas o que impulsiona a inovação é tarifa, crédito, abertura de mercado, negociação internacional e promoção comercial. Precisamos de um envolvimento maior do Ministério do Desenvolvimento, de um tratamento mais sólido quanto ao capital de risco, do envolvimento do Ministério da Fazenda. A inovação tem que ir além da Finep e do CNPq e penetrar no core da política econômica. Se conseguirmos isso, a solução para os demais desafios vem na sequência.

Cooperação universidade-empresa

Essa cooperação nunca foi absolutamente ruim. De modo geral, há uma tendência progressiva para a cooperação. Uma universidade tem acima de tudo o objetivo de educar gente. Se a fosse uma empresa, seu produto principal seria o aluno. Na receita das universidades, não chegam a 15% os recursos que vêm de colaboração. Para as escolas, quanto mais gente aprenderem, melhor. Em uma empresa competente e desenvolvida, cuja tecnologia tem papel decisivo, é o contrário: quanto  menos pessoas tiverem acesso ao àquele conhecimento, melhor, pois é isso que garante o valor. A cooperação mostra que, apesar disso, é benéfica para ambas. Para a universidade, traz desafios novos, problemas de estudo, oportunidades para os estudantes. E as empresas se beneficiam acessando um conhecimento diferente e mais amplo do que existe internamente.

Inova Empresa e Embrapii

A Embrapii e o Inova empresa trazem uma novidade importante. A dúvida está na forma de operacionalizar. É a estruturação de um modelo que estimule várias instituições a atuará fortemente em conjunto via sustentabilidade financeira.  Assim como ocorreu com os NIT’s e com a Lei de inovação, vamos passar por um período de aprendizado, e é esse aprendizado que vai dizer seu impacto e sucesso.

É uma iniciativa importante, por mais que seja difícil. O cenário é diferente do da Embrapa. Os agricultores não competem diretamente um com o outro, têm uma característica de cooperação muito forte, é mais fácil difundir determinadas tecnologias. Na indústria, ao contrário, as empresas não estão tão dispostas a passar informações para o vizinho. É difícil trabalhar “no atacado” e gerar soluções quase que globais como acontece com variedades de soja, por exemplo.

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