As promessas da inovação aberta: o que aprendemos e o que esperar

Bruno Rondani, diretor-presidente do Wenovate

Desde que o termo foi cunhado em 2003, o conceito de inovação aberta foi vastamente adotado pelos gestores da inovação das principais empresas no mundo todo. O modelo nasceu trazendo consigo algumas promessas importantes. Enquanto algumas se cumpriram, outras não se realizaram da mesma forma e ainda enfrentam desafios.

Dentre as promessas cumpridas, o entendimento geral dos gestores é que o modelo de inovação aberta motivou uma mudança de paradigma gerencial em que a colaboração externa passou ser tratada com muito mais atenção, disciplina e, principalmente, método. Hoje, são poucas as empresas líderes em inovação que não investiram nos últimos 10 anos em modelos e sistemas gerenciais para lidar com a complexidade da colaboração externa para a inovação. Esse esforço acabou favorecendo também o fortalecimento da cultura da inovação colaborativa internamente nas organizações.

As plataformas de software que facilitam a colaboração interna tornaram-se item comum, bem como o uso de intermediários de inovação para facilitar a conexão com o ambiente externo. De um lado, as plataformas colaborativas internas se popularizaram tendo como objetivo engajar horizontalmente funcionários no processo de inovação da empresa independentemente de sua função, cargo ou departamento. Do outro, os intermediários de inovação se multiplicaram no mercado prometendo diminuir a assimetria de informação entre aqueles que possuem desafios e aqueles que possuem soluções.

Porém, as principais promessas que a prática da inovação aberta trazia eram mais pragmáticas. Entre os benefícios mais citados pelos seus evangelistas estavam (1) o acesso a conhecimento e tecnologias externas que viabilizam ou  reduzem o tempo e risco para o desenvolvimento de inovações, (2) o compartilhamento de conhecimento e recursos complementares entre parceiros, atenuando a demanda por novos investimentos, (3) a monetização de ativos tecnológicos inutilizados internamente por meio de licenciamento/venda de patentes, spin-off de novos negócios ou desinvestimento, (4) a criação de modelos de negócios abertos capazes de evoluir para plataformas em seu estágio mais avançado.

Dos mais diversos modelos que as empresas adotaram para alcançar os objetivos prometidos pela prática da inovação aberta, destaca-se a popularização do lançamento de desafios através de plataformas próprias ou oferecidas por intermediários externos. Hoje elas são parte do sistema de inovação e respondem bem a problemas incrementais, mas não ao desenvolvimento de inovações estratégicas. A popularização dos desafios de inovação aberta, segundo os praticantes, foram muito úteis para sensibilização de redes externas, ainda que os projetos mais relevantes de colaboração partam da relação mais estreitas com parceiros estratégicos.

Vimos com mais frequência a parceria entre empresas, universidades e governo na criação de ambientes, laboratórios e até organizações gestoras dedicadas à colaboração entre seus mantenedores e comunidades externas. Universidades reorganizaram muitos de seus grupos de pesquisa em torno de centros orientados a desafios da sociedade e da indústria. Empresas de setores distintos criaram consórcios entre si para a viabialização de organizações dedicadas à gestão e execução de projetos colaborativos de inovação. Laboratórios de pesquisa montaram infraestruturas de demonstração de tecnologia visando à comercialização de resultados da pesquisa para a iniciativa privada. Parques tecnológicos investiram na criação de ambientes de colaboração para integrar com mais facilidade os diferentes atores da inovação e até países se uniram para criar organizações voltadas à colaboração bilateral para a inovação.

Essas iniciativas produziram um grande impacto em prol da colaboração para o desenvolvimento de inovações, mas a crítica comum é que os aspectos relacionados aos modelos de investimento público-privado e à negociação da titularidade e exploração da propriedade intelectual resultantes dos projetos são ainda importantes desafios.

Também vimos a multiplicação de fundos de venture capital e aceleradoras de startups corporativas. Os fundos corporativos se distinguem dos tradicionais venture capitalists, que têm como objetivo puramente o resultado financeiro de seus investimentos, por inserirem na equação outros objetivos. Entre eles, a monetização de ativos tecnológicos não utilizados internamente a partir da criação de novos negócios, a aquisição de startups relevantes para o core business e o fomento de ecossistemas externos. Em sua maioria, essas iniciativas ainda não demonstraram resultados de que de fato impactam na construção de uma estratégia de inovação para a empresa mãe, e já há casos de alguns desses fundos abandonarem seus objetivos estratégicos e voltarem-se ao modelo puramente financeiro.

Também vimos algumas empresas redefinirem radicalmente sua estrutura e estratégia para se tornarem plataformas orquestradoras de comunidades de inovação. Temos exemplos em vários setores dessa transformação, em empresas como Apple, P&G e Eli Lilly.

O legado da inovação aberta

A inovação aberta que vemos acontecer hoje ainda encontra uma série de desafios. Esses desafios mais justificam a validade do que foi proposto, do que o colocam em risco, pois só existem pela radical mudança de comportamento pela qual o mercado passou. As empresas hoje competem pelas redes de inovação.

Os ecossistemas são complexos e está cada vez mais claro que a conexão entre as pessoas é ponto essencial. Para a inovação aberta acontecer, é preciso acima de tudo estabelecer relações de confiança. Cada vez mais, estabelecemos consórcios, que abrangem interesses diferentes e o desafio está em encontrar o equilíbrio para que, ainda assim, se consiga trabalhar em conjunto.

O que aprendemos nesses últimos anos foi que o esforço de inovação não está restrito ao P&D, a nenhum outro departamento de uma empresa, à própria empresa ou ao seu modelo de negócio. O esforço da inovação está distribuído nas diversas comunidades. Estamos vivendo uma transformação em como indivíduos e instituições se organizam para inovar. A abordagem da inovação aberta auxilia as empresas a navegarem nesse novo ambiente.

As relações externas fortalecem a importância de modelos de negócios para garantir a competitividade e não apenas o domínio tecnológico ou a oferta do produto. É por meio da inovação aberta que avançamos num novo entendimento sobre propriedade intelectual, na parceria universidade-empresa, no compartilhamento de recursos e na aplicação do conhecimento gerado de forma dispersa. Hoje a inovação aberta traz consigo a promessa de que as empresas podem ser atores chaves para reorientar seus esforços em torno dos novos desafios globais e sociais mesmo dentro de um ambiente competitivo. Ou seja, uma nova era do capitalismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *