Uma só mudança

Uma rápida busca no Google pelo nome do pesquisador residente da Universidade da Califórnia em Berkeley, Jean Paul Jacob, mostra mais de 500 mil resultados. Boa parte são reportagens e entrevistas com suas previsões sobre o futuro da tecnologia. Em uma delas, em entrevista a Jô Soares, acertou na mosca a introdução dessa tal de world wide web (www) nas nossas vidas. Mais que um bom vidente, Jacob é um observador atento das mudanças. Durante algumas décadas, vivenciou essas transformações olhando de dentro de uma gigante da tecnologia, a IBM. Para o boletim Inovação Aberta, também pedimos previsões – e retrospectivas -, mas com foco nas práticas de inovação. Para ele, toda a discussão sobre inovação nasce a partir de uma expressão: economia de serviços.

Inovação Aberta (I.A.): Quais foram as principais mudanças em relação às práticas de inovação mundiais dos últimos dez anos?

Houve uma só grande mudança: somos cada vez mais trabalhadores de uma economia de serviços em que o diferencial competitivo é a inovação. O serviço é sempre uma coprodução. Sempre. No restaurante ou no consultório médico, quanto mais você der informações para o prestador de serviços, melhor será o resultado. Além disso, é um bem intangível. Portanto, não existe métrica. Como você pode provar que é melhor jornalista do que outros: pelo número de palavras que escreve? Isso não existe. A única forma de se diferenciar é a inovação.

I.A.: Se compararmos as práticas de inovação de dez anos atrás e de hoje houve uma mudança expressiva na inovação em si?

A prática em si é muito semelhante. A diferença é que há dez anos falava-se mais sobre pastel de queijo do que sobre inovação. Inovação é a palavra da moda, assim como agora surgiram cloud computing e big data.

I.A.: E a mudança que a inovação aberta trouxe?

A inovação é definida por quatro características, que são seus pilares de sustentação: é colaborativa, multidisciplinar, aberta e global. Henry Chesbrough avaliou em sua área de negócios que a abertura era o pilar mais importante e, por isso, a nomenclatura inovação aberta, mas a inovação sempre precisa dos quatro pilares.

I.A.: Como a introdução do conceito de inovação aberta modificou as empresas?

Houve uma modificação na cultura. As empresas estão entendendo que não precisam fazer tudo e inventar tudo. Quanto mais ouvirem seus clientes, melhor para as empresas. Quando recebem as demandas dos clientes e coproduzem com eles, estão recebendo involuntariamente o conceito de inovação.

I.A.: Essa mudança teve impacto mesmo sobre empresas sólidas, como a IBM?

A mudança  é mais lenta na grande que na microempresa, assim como é muito mais fácil guinar um barco à vela que um transatlântico. A IBM deu essa guinada quando passou de empresa que produzia computador para empresa de serviços. Essa redefinição salvou a IBM. Aconteceu em 1993 e continua acontecendo agora, inclusive na chamada inovação aberta. A IBM, que sempre teve grande orgulho de seu portfólio de patentes, hoje compra empresas e coutiliza suas tecnologias e soluções em uma velocidade que não imaginaríamos.

I.A.: Esse é um modelo que deve continuar se provando verdadeiro nos próximos anos?

Sim. A pergunta é: a que velocidade? As empresas que chegarem primeiro têm mais chances de sucesso, mas a inovação tem tempo certo. Às vezes, acontece rápido demais ou na direção errada. O primeiro smartphone, chamado Simon, foi criado pela IBM [em 1992] e foi um feito brilhante, mas prematuro, lançado muito antes de seu tempo. Ninguém sabia o que era aquilo, telefone era só algo que ligava e que tocava. Neste momento, estou avaliando dez inovações, algumas na área de medicina e saúde, por exemplo, e tentando saber se elas darão certo. Não basta elas serem brilhantes.

I.A.: Podemos esperar novas mudanças tão importantes?

A inovação foi uma consequência da passagem de uma economia industrial para a de serviços. O que nos aguarda agora é uma reversão/evolução da economia de serviços. A economia industrial é massificada, enquanto a de serviços traz a personalização. Teremos nos próximos anos a massificação com personalização. Por exemplo, será possível introduzir tecnologia como a impressão 3D nos consultórios de dentistas para acelerar a produção de próteses, mas cada uma será feita de forma individualizada para cada paciente. Da mesma forma, isso pode acontecer com a produção de órgãos humanos para transplantes.

I.A.: Quais as perspectivas em relação à inovação para os próximos anos?

Quando falo sobre inovação em minhas palestras, mostro que a inovação será movida a desafios em áreas em que antes não pensávamos do ponto de vista da inovação tecnológica. As pessoas estão migrando do campo para a cidade em todo o mundo. Como vai ser produzida a comida? Sem contar as dificuldades como transporte, epidemias, energia e outros tantos desafios sociais que irão guiar a inovação: saúde, transporte, crime, água potável.

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