Desafio Brasil: inovação aberta e empreendedorismo

Bruno Rondani

Lançada no início de junho, a oitava edição do Desafio Brasil, maior e mais tradicional competição de empreendedorismo de alto impacto do país, traz uma novidade que merece a atenção dos gestores de inovação aberta e investidores de venture capital. Neste ano, além da competição tradicional, a plataforma do programa inclui espaços dedicados ao compartilhamento de ideias e à interação dos participantes entre si, com interessados em geral e especialmente com empresas maduras que queiram lançar desafios para a comunidade de empreendedores.

O objetivo é criar um ambiente de cocriação do qual possam surgir propostas de negócios mais consistentes do que aqueles que são elaborados individualmente e mais realistas e aderentes às demandas de mercado. Ao postar uma ideia na rede, o participante pode receber o feedback de outras pessoas, ouvir críticas, ser questionado quanto à viabilidade, descobrir sinergias e estabelecer parcerias. Com a ideia amadurecida e, quem sabe, com um time reforçado, aí sim, coloca sua startup na competição geral ou nos desafios oferecidos pelas grandes empresas.

A proposta vai ao encontro das discussões mais recentes sobre o poder do trabalho coletivo e da colaboração em um ambiente competitivo. Se verificarmos a plataforma do desafio, os cerca de 700 usuários cadastrados nos primeiros 10 dias submeteram 132 ideias das quais 46% foram publicadas para cocriação e 54% foram submetidas diretamente para a competição, ficando ocultas aos demais participantes. Esse número equilibrado surpreendeu alguns especialistas em empreendedorismo, que acreditavam que a cultura que prevaleceria seria a da não divulgação de ideias para colaboração.

As razões pelas quais um empreendedor publicaria suas ideias em uma rede aberta instigam a reflexão. O debate surgiu no próprio fórum do desafio, quando um participante postou: “Qual é o risco que corro de postar uma ideia e ela ser roubada por outra pessoa?”. Na detecção do risco, o perguntador foi certeiro. Sim, ele existe. Mas inovar e empreender implicam em riscos, que devem ser calculados ao lado dos benefícios que cada decisão agrega.

No caso de um empreendedor que tem pouco mais que uma ideia, buscar ajuda é fundamental. Em primeiro lugar, não é assim tão fácil “roubar” uma ideia. A concretização e as formas de torná-la real demandam muito esforço e engajamento. Além disso, conversando, sendo questionado, buscando estabelecer conexões com pessoas que possuam competências complementares às suas e procurando parceiros para dividir os riscos é que o empreendedor pode começar a passar a ideia da cabeça para o papel e do papel para o mundo dos negócios. “Sozinho, tudo se torna mais difícil”, como bem sintetizou outro participante.

Há que se lembrar, ainda, que o ambiente que o Desafio Brasil proporciona não é formado só por empreendedores iniciantes. Qualquer pessoa pode participar ou ser convidada como especialista, mentora ou membro das equipes em qualquer momento ao longo do processo. Além disso, a participação de grandes empresas é uma peça fundamental.

Atraídas pela possibilidade de se conectar à comunidade de startups e orientar empreendedores e ideias aos seus desafios de negócios, diversas empresas já demonstraram interesse em colaborar. Para elas é uma oportunidade de conhecer as tendências de inovação presentes na comunidade e o estágio de maturidade dessas ideias, sendo que podem ainda realimentar seus processos de inovação aberta.

Para os empreendedores, essa participação se traduz na chance de ganhar visibilidade e estabelecer parcerias que serão decisivas para o sucesso. A participação das grandes empresas contribui para que o empreendedor se conecte desde a concepção do negócio com uma percepção realista sobre as demandas de mercado.

O exemplo do Desafio Brasil nos traz questionamentos sobre as diferentes formas de fomentar os ecossistemas de inovação e sobre o papel das competições de startups. O que é mais benéfico: cooperar ou competir? Parece estar claro que não existe uma relação de oposição, mas, sim, de complementaridade. Por mais que muitas vezes se pense na figura do empreendedor de forma isolada à frente do próprio negócio, empreender é uma atividade coletiva por excelência, assim como o é a inovação. A combinação de etapas do desafio estimula o empreendedor a se inspirar por meio da história de outros empreendedores, a se conectar com potenciais clientes, especialistas, empresas e interessados em geral. O participante pode transformar suas paixões em produtos e serviços viáveis e pode atrair e engajar mentores e se aproximar de investidores para, no futuro, capitalizar sua startup.

Uma competição de startups elaborada de forma a agregar as duas vertentes, contribui para diversos fatores. Um deles é o estímulo à realização imediata de projetos que poderiam ser postergados indefinidamente. Outro é a educação do empreendedor, na medida em que o estimula a aprender na prática e o coloca frente a frente com outros empreendedores, especialistas e líderes reconhecidos que participam da seleção. Na mesma lista, está a melhoria dos negócios que chegam ao mercado, já que funciona como um filtro em que se seleciona e exclui, mas, também, se modifica e aprimora enquanto promove outros dois itens fundamentais: criação de networking e construção de times que se tornam a essência do negócio.

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