Mudar para não inovar?

Augusto de Franco, especialista e criador da Escola de Redes.

Se o seu conceito de rede social é Facebook, LinkedIn e Twitter, está na hora de repensar seus conceitos. Essas são mídias sociais, plataformas pelas quais as redes passam, mas não são exclusivas. Somos – e sempre fomos – partes de redes complexas de relações sociais que existem independentemente da tecnologia. A diferença é que, hoje, as redes parecem estar mais emaranhadas, cada vez mais distribuídas e interconectadas. Essa mudança afeta as organizações e a forma como elas inovam.

Para entender de que forma isso acontece, conversamos com o especialista Augusto de Franco. Criador da Escola de Redes, ele possui uma infinidade de livros publicados sobre o tema e tem trabalhado com grandes empresas. Para ele, a estrutura de corporação à qual ainda estamos acostumados (hierárquica, física e ordeira) é arbitrária: ignora as conexões espontâneas formadas entre as pessoas e tenta redesenhar as relações. Em nome de controle e organização, esse modelo tolhe a capacidade de inovar. Incisivo, o especialista ainda afirma que, muitas vezes, as organizações se esforçam justamente em impedir as grandes inovações.

Wenovate: Qual é o entendimento das empresas sobre redes sociais?

Augusto: As empresas não sabem o que é rede, confundem redes sociais com mídias sociais, acham que a rede é uma plataforma, não um padrão de organização. Acham que a rede é algo que se cria, não algo que já existe. Toda empresa é uma rede que está abaixo de um modelo autocrático que a sufoca. A gestão é uma obstrução de fluxo para capturá-lo e deixá-lo rodando ali dentro. Ela se baseia em comando e controle, ou seja: tenta condicionar esse fluxo.

Wenovate: O que acontece quando começam a questionar esse padrão?

Augusto: Muitas vezes, quando as empresas começam a pensar sobre redes, querem fazer mais do mesmo: mudar sem mudar.  Quando se descobre que existe um padrão mais distribuído, precisa-se mudar a configuração para uma direção descentralizada. O problema é que existem barreiras. E elas, normalmente, não estão na alta direção, mas na gerência média. A gerência média está preocupada em manter o funcionamento corrente, em ser promovida, em não perder o cargo que ocupa. Mudar uma estrutura engessada é ameaçar essas posições. Portanto, existem preocupações políticas que funcionam como anticorpos contra qualquer mudança, especialmente na transição de uma empresa hierárquica para uma empresa em rede. O mercado de consultoria funciona assim. Grande parte das consultorias não muda nada porque, quando dá certo e muda, é perigoso: a gerência se sente ameaçada, a área de TI não gosta, o RH acha difícil, o jurídico barra.

Wenovate: Como funciona uma empresa em rede?

Augusto: Uma empresa em rede é a vida normal, sem tantas proibições. Não é proibido usar o Facebook, o navegador que os funcionários usam não precisa ser só o Internet Explorer… Na prática, o que a gente vê é que o funcionário não pode acessar o Youtube, Dropbox, Google Drive. Tudo em nome de segurança, para não perder o controle do que se faz no mundo virtual. Para a empresa ser em rede, ela não pode trancar as pessoas obrigando-as a ir lá todos os dias. Claro que existem cargos na indústria em que o cara precisa estar fisicamente presente, mas não a empresa inteira. As empresas até hoje aprisionam os corpos, fazem o sujeito ir lá de manhã cedo e só sair de noite. E, quando está lá, aí a empresa coloca o sujeito em baias, que são bem menores que qualquer baia de cavalo, tolhendo a mobilidade. Não existem espaços livres para cocriar ideias, já que todos os espaços estão regulados.

Além disso, só o departamento de desenvolvimento cria. Está errado. O ambiente de inovação tem que ser a empresa inteira. Inovação é a capacidade instalada de se adaptar a mudanças. Isso envolve também os indicadores. Mostrar se houve aumento de faturamento com novos produtos não indica inovação. Inovação não é lucrar mais, mas viver mais, ser mais sustentável. O problema é que as empresas foram feitas para reproduzir e, agora, precisam criar.

Wenovate: O conceito de inovação aberta está fortemente ligado ao entendimento de rede…

Augusto: A rede, na verdade, é o ecossistema: steakholders internos e externos. A questão da inovação aberta é que ela só é aberta se for distribuída também. Não pode ter paredes sólidas que a separem, tem que ter membranas.

Wenovate: Qual o principal desafio que as empresas enfrentam para inovar nesse contexto?

Augusto: Mesmo crescendo, as empresas podem morrer, pois estão susceptíveis ao chamado risco sistêmico. O tempo de vida médio das corporações está caindo. Hoje, é de 15 anos, sendo que já foi de 75 anos. Isso por causa da interatividade. O número de caminhos e de maneiras de fazer as coisas se multiplicou, as pessoas têm várias alternativas. É por isso que não basta crescer em faturamento. Quando a empresa cresce, a produtividade também tende a cair e a inovatividade diminui. Esse é um risco sistêmico. Pegue o exemplo da Kodak, que foi ficando obsoleta, de repente deu um “cabum” e ficou inadequada.

Wenovate: É uma resistência à inovação disruptiva…

Augusto: A questão é que a empresa normalmente quer se proteger das mudanças, quando deveria se modificar na medida em que outras mudanças ocorrem. As operadoras de telefonia celular, por exemplo, são desnecessárias. Já há tecnologia para substituir o que está aí por um sistema muito mais barato. Mas, como sabem disso, as companhias tentam se aliar ao governo para proibir algumas mudanças, criar regras, impedir a inovação. Ou seja, mudam, mas para impedir a inovação. Esse caminho não tem nenhuma chance de sucesso.

Veja essas agitações no mundo no primeiro semestre de 2013. As empresas acham que não é com elas, que é só com os governos. Ficam procurando causa quando na verdade não tem causa. Esse é o metabolismo da sociedade. Na rede, qualquer estímulo, mesmo que originado na periferia do sistema, é capaz de provocar uma grande mudança. Em 2008, o risco sistêmico demorou uma semana para instalar completamente a crise do mercado financeiro com a Lehman Brothers.

Wenovate: Tem como se preparar para essas mudanças?

Augusto: Não tem como evitar a crise, mas quem estiver mais preparado para mudar tempestivamente consegue sobreviver às crises.

Wenovate: Existem exemplos de empresas organizadas dessa nova forma?

Augusto: Não existe um modelo ou um padrão quando se fala de rede. Cada rede é diferente, pois o emaranhado de relações é diferente. Todas as empresas são rede em alguma medida, mas não reconhecem isso. A rede é uma dinâmica de organização. Tem muitas tentativas de mudança. Tem gente que já opera há muito tempo assim. Tem uma empresa de software que não usa e-mail, por exemplo, só Facebook.

Wenovate: E funciona?

Augusto: Funciona. Eles usam um grupo fechado e todo mundo conversa ali. Tem empresa que tem sua própria plataforma, mas às vezes isso não funciona. É o mesmo motivo pelo qual a maioria das plataformas para inovação não funcionam. As pessoas simplesmente não entram nessas plataformas porque aquele não é o ambiente delas. Ninguém sai do lugar em que está para ir interagir em outro lugar. Uma empresa com a mentalidade de rede entende que as conexões já existem e que forçá-las a mudar de lugar não funciona. Se todo mundo está no Facebook, por que não fazer as interações por lá? Enquanto uma plataforma precisar que os gestores fiquem dando injeção nas pessoas para motivá-las a interagir, é sinal de que a rede ainda não existe.

Wenovate: Uma empresa já toda estruturada que queira migrar para rede consegue?

Augusto: Tem que fazer uma transição para reconfigurar tudo, desde o ambiente físico. Não adianta querer instalar um software para Windows em uma máquina da Apple.

Wenovate: Como acontece a inovação nesse cenário?

Augusto: A inovação é uma disposição. A rigor, gestão da inovação é um troço muito difícil. Quem cria é a inteligência coletiva. Dez Einstein não criam a Teoria da Relatividade. Ele estava conectado a outras pessoas e essa rede possibilitou que ele chegasse às conclusões que chegou. Por isso a inovação não vem apenas da ideia boa, mas de muitas ideias juntas, que, na combinação, criam um grupo criativo. Isso porque a inovação não sai do cérebro de um indivíduo, mas de um ambiente inovador, da interação, é a consequência da inteligência coletiva a partir de um arranjo. É por isso que faz tanto sentido quando empresas se organizam em clusters e vão crescendo em conjunto.

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