O boom do investimento corporativo em startups

Quase uma década depois, os dados deixam claro: o venture capital mundial saiu da casa dos US$ 30 bilhões anuais para mais de 250 bilhões

Em 2010, os pesquisadores Kaplan e Lerner publicaram um artigo que chamou muito a minha atenção. Nele, os autores antecipavam que o movimento de open innovation das grandes corporações seria um dos grandes direcionadores da retomada e expansão global do venture capital. O interesse de grandes empresas em se aproximar das startups traria muitas novas oportunidades de investimento.

Quase uma década depois, os dados deixam claro: o venture capital mundial saiu da casa dos US$ 30 bilhões anuais para mais de 250 bilhões, com a participação dos Estados Unidos caindo de cerca de cerca de 3/4 do total mundial para algo mais próximo de metade. Ao mesmo tempo, se, de um lado, o número de fundos de venture capital que captam novos investimentos por ano se manteve por volta de 400 nesse período (383 em 2010 e 434 em 2018), o número de novos grupos de corporate venture capital que fizeram investimento no ano subiu de cerca de 24 em 2010 para a casa dos 200 em 2018, de acordo com dados do Pitchbook, Crunchbase, CBInsights e National Venture Capital Association (NVCA).

Investimentos corporativos em startups

Mundialmente, destaca-se nessa modalidade a Alphabet, com mais de 100 investimentos por ano operados por um conjunto de veículos como GV, Capital IG, LaunchPad Accelerator, Google e Gradient Ventures. Em seguida, as corporações mais ativas em investimento em startups são gigantes como Tencent, Softbank, Intel, SalesForce, GE Qualcomm.

No Brasil, nos últimos meses, vimos o mercado aquecido com empresas maiores adquirindo e investindo em startups. Desde gigantes mais tradicionais, como Itaú comprando Zup (2019), ou a B2W comprando Supermercado Now (2020). O BV (nova marca do Banco Votorantim) liderou a rodada de investimento de R$ 400 milhões no Banco Neon (2019), que, por sua vez, adquiriu a startup MeiFácil (2019).

Em seguida, o mesmo BV anunciou o investimento de R$ 80 milhões na startup de antecipação de recebíveis Weel (2020). Nessa mesma linha, a XP Investimentos confirmou para o mercado o aporte de R$380 milhões na startup Vai.Car (2020).

Voltando um pouco no tempo, temos a experiência viva da farmacêutica EMS, que, em 2013, criou seu braço de CVC Brace Capital em Maryland nos EUA, com um volume reservado de US$ 150 milhões. De lá para cá, a empresa investiu em 11 startups no exterior.

No mesmo setor, tivemos o recente anúncio da Hypera Pharma sobre a criação de seu fundo de R$ 200 milhões para investir em startups de saúde brasileiras ou que queiram vir ao mercado brasileiro.

Aquisições por unicórnios

Tivemos, também, uma forte movimentação de unicórnios fazendo aquisições de startups em fases iniciais, como o iFood adquirindo a Hekima (2020); Nubank a Plataformatec (2020); VTEX a Dlieve; e a Loft a adquirindo, há pouco tempo, a Decorati e Spry (2020). No ano passado, a Gympass comprou a Flaner (2019) e a Loggi adquiriu a startup de inteligência artificial WorldSense (2020), em operação similar.

Relacionamento entre grandes empresas e startups

Os exemplos citados acima, correspondem a uma modalidade de relacionamento entre grandes empresas e startups denominada Corporate Development. Essa modalidade engloba os veículos de participação acionário em startups como M&A, corporate venture capital e aceleradoras corporativas.

Dentre as principais estratégias de Corporate Development com startups, podemos observar e destacar os seguintes objetivos mais comuns:

  1. Aquisição de talentos: como foi o objetivo explícito nos casos da aquisição da Plataformatec pela Nubank, e da Loft com a Spry;
  2. Aquisição de partes relevantes de tecnologia: como foi o caso da aquisição da Payit, startup de meio de pagamento baseado em blockchain, pela Rappi;
  3. Expansão das características do produto/oferta: como no caso da Dlieve, adquirida pela VTEX, que agrega a ferramenta de gestão de transportes da plataforma;
  4. Aquisição de novas competências: como o iFood, que, ao receber aporte de US$ 500 milhões, passou a investir fortemente em expandir sua competência na área de inteligência artificial e adquiriu a Hekima com esse objetivo;
  5. Expansão de plataforma/portfolio em negócios relacionados ou em novos negócios: Carrefour adquire participação na eWally, com o objetivo de ampliar o ecossistema de pagamentos;
  6. Agente de Transformação: a aquisição da Zup pelo Itaú tem como objetivo acelerar o desenvolvimento dos projetos de transformação digital e a oferta de novas funcionalidades e de produtos digitais aos clientes do banco.

Além de investimento em aquisição ou participação acionária, a presença das grandes empresas no ecossistema de startups toma outros formatos que vêm ganhando relevância cada vez maior. Junto com a modalidade de Corporate Development, emergiram, na última década, três outras modalidades de relacionamento com startups, assim como derivações de suas estratégias de open innovation. Juntas, essas quatro estratégias formam a estrutura de Corporate-Startups Engagement:

Corporate Develoment

Business Partnerships

Business Operations

Ecosystem Development

É comum vermos grandes empresas desenvolvendo programas e veículos com essas distintas modalidades de relacionamento com startups.

Neste artigo, exploramos mais sobre a primeira modalidade. As demais serão foco dos próximos. Não perca!

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