Se você tivesse que escolher apenas uma opção, qual escolheria: estudar ou praticar?

A resposta parece óbvia. Empreendedorismo é uma atividade prática. Portanto, para aprender a empreender, seria preciso empreender.

Mas experimente fazer a mesma pergunta para outras profissões.

Um médico aprende medicina estudando ou atendendo pacientes? Um engenheiro aprende engenharia estudando cálculo, física e materiais ou projetando e construindo? Um advogado aprende Direito lendo doutrina e jurisprudência ou enfrentando casos reais? E um técnico de enfermagem, um piloto, um bombeiro ou um policial?

Existe claramente um espectro entre teoria e prática. Algumas profissões exigem enorme domínio conceitual antes da atuação. Outras dependem ainda mais de treino repetido, simulação, supervisão e experiência de campo. Mas é difícil encontrar uma profissão séria em que um dos dois lados seja dispensável.

Seria absurdo formar um médico apenas com livros e aulas, sem contato com pacientes. Mas seria ainda mais absurdo colocá-lo diante de pacientes sem antes estudar anatomia, fisiologia, diagnóstico e farmacologia.

Seria estranho formar um engenheiro apenas resolvendo equações. Mas ninguém defenderia que a melhor maneira de aprender a construir uma ponte é começar construindo pontes e descobrir, por tentativa e erro, quais permanecem de pé.

Até atividades extremamente práticas acumulam conhecimento. Em uma luta, por exemplo, uma nova técnica pode primeiro ser explicada e demonstrada. Depois é repetida em situação controlada, testada contra resistência e finalmente incorporada ao jogo real. A competição mostra se aquilo funciona quando o outro lado não está colaborando.

A prática testa o conhecimento. O conhecimento melhora a prática.

Então por que ainda discutimos empreendedorismo como se fosse necessário escolher entre os dois?

Geralmente, a prática vem primeiro.

Pontes foram construídas antes de existirem faculdades de Engenharia. Doentes eram tratados antes de existirem escolas de Medicina. Contratos, julgamentos e regras existiram antes das faculdades de Direito. Empresas existiram antes das escolas de Administração. E pessoas empreendiam muito antes de existir uma disciplina chamada Empreendedorismo.

Esse parece ser o caminho normal de muitos campos profissionais.

Primeiro surge uma prática. Depois aparecem praticantes. Forma-se uma comunidade de pessoas que fazem aquilo, surge demanda por mais praticantes e cresce a necessidade de formar novas pessoas capazes de exercer aquela atividade com mais qualidade, segurança e eficiência.

Com o tempo, experiências começam a ser comparadas. Erros e acertos são registrados. Padrões aparecem. Conceitos são formulados. Métodos são testados. Pesquisadores passam a investigar por que algumas coisas funcionam e outras não.

Parte daquele conhecimento deixa de existir apenas na cabeça dos praticantes e começa a ser codificada, discutida, pesquisada e ensinada.

Surge um corpo de conhecimento.

É assim que uma prática também se transforma em campo de conhecimento.

Empreendedorismo e inovação têm teoria.

Inovação e empreendedorismo são objeto de estudo sistemático há mais de um século.

Um marco clássico é Joseph Schumpeter, que colocou o empreendedor e a inovação no centro da explicação do desenvolvimento econômico. Na visão schumpeteriana, o empreendedor não é apenas alguém que abre uma empresa: é um agente capaz de introduzir novas combinações, novos produtos, processos, mercados e formas de organizar a atividade econômica.

Ao longo do século XX, esse campo se ampliou muito. Pesquisadores passaram a estudar de onde surgem as inovações, como empresas aprendem, por que setores inovam de maneiras diferentes, como conhecimento científico se transforma em tecnologia, como organizações administram processos inovadores e como empreendedores tomam decisões quando o futuro ainda não pode ser previsto.

Um segundo deslocamento importante veio de Sankaran Venkataraman. Ao lado de Scott Shane, publicou em 2000 o artigo seminal “The Promise of Entrepreneurship as a Field of Research”, que mudou a pergunta central do campo: em vez de perguntar quem é o empreendedor, passou a perguntar como oportunidades surgem, são reconhecidas e exploradas. O negócio nasce do nexo entre uma oportunidade e a pessoa capaz de agir sobre ela, não de um perfil predefinido.

Foi também ao lado de Venkataraman que Saras Sarasvathy desenvolveu a teoria de Effectuation, estudando a lógica de decisão de empreendedores experientes diante da incerteza. Juntos, os dois deram um passo além do nexo indivíduo-oportunidade: propuseram que empreendedorismo funciona como um método de ação e raciocínio, replicável, ensinável, aplicável a qualquer pessoa disposta a praticá-lo, da mesma forma que o método científico não pertence a um tipo especial de cientista.

A lista é muito maior. O ponto aqui não é fazer uma aula de história do pensamento empreendedor.

É reconhecer algo simples: existe conhecimento acumulado sobre empreendedorismo, e parte relevante desse conhecimento já aponta na mesma direção que este livro defende- método, não perfil.

Isso não significa que exista uma fórmula capaz de produzir um empreendedor. Significa que alguém que decide empreender hoje não precisa ignorar o que milhares de pesquisadores e praticantes aprenderam antes dele.

Desconsiderar esse conhecimento porque o empreendedorismo é uma prática seria tão estranho quanto ignorar conhecimento médico porque a medicina acontece diante de pacientes.

Dois erros opostos

Existe uma crítica correta à educação empreendedora tradicional.

É perfeitamente possível estudar modelos de negócio, estratégia, venture capital, marketing, inovação e startups durante anos e continuar incapaz de transformar uma ideia em alguma coisa que gere valor.

Ensinar sobre empreendedorismo é diferente de ensinar alguém a empreender.

Esse é um problema.

Mas existe um erro exatamente oposto: imaginar que, porque empreendedorismo é prático, basta mandar alguém “ir lá e fazer”.

Monte uma startup. Crie um MVP. Converse com clientes. Venda alguma coisa. Erre. Quebre a cara. Aprenda fazendo.

Pode funcionar. Mas não necessariamente.

Uma pessoa também pode errar vinte vezes e ficar excelente em repetir o mesmo erro.

Prática só se transforma em aprendizagem quando existe alguma combinação de repertório, ação, observação, evidência, feedback e reflexão.

Por isso, talvez a discussão mais interessante não seja TEORIA ou PRÁTICA.

Talvez seja:

CONHECIMENTO → PRÁTICA → EVIDÊNCIA → FEEDBACK → REFLEXÃO → NOVA PRÁTICA.

O dilema chegou às universidades

No Brasil, essa discussão ganhou força especialmente quando universidades passaram a enfrentar uma pergunta difícil: como transformar mais conhecimento científico e tecnológico em inovação, empresas, produtos e soluções para a sociedade?

Nas últimas décadas surgiram incubadoras, parques tecnológicos, empresas juniores, competições, disciplinas, aceleradoras, ligas estudantis, Núcleos de Inovação Tecnológica e diversos outros mecanismos destinados a aproximar universidade, empreendedorismo, tecnologia e mercado.

Essa infraestrutura foi importante. Mas o fato de continuarmos discutindo a dificuldade de levar ciência ao mercado mostra que o problema ainda não está resolvido.

Talvez parte da dificuldade esteja no fato de termos tratado separadamente coisas que deveriam funcionar juntas.

Criamos disciplinas para transmitir conhecimento.

Criamos incubadoras para apoiar empresas.

Criamos mecanismos de transferência de tecnologia.

Criamos eventos e competições para estimular empreendedores.

Todos são úteis. Nenhum deles, isoladamente, resolve o problema de desenvolver competência empreendedora.

Do Desafio Brasil à Open Startups

Nós também começamos tentando responder a esse problema.

Na FGV, o Desafio Brasil foi uma das experiências pioneiras de formação empreendedora orientada à lógica de venture capital. Empreendedores submetiam seus projetos, organizavam suas ideias por meio de formulários, recebiam orientação, participavam de atividades e avançavam por etapas até apresentá-los a investidores.

O próprio processo de competir também ensinava. Para participar, era preciso organizar uma oportunidade, formular um modelo, responder perguntas, construir argumentos e defender decisões.

Na última edição, o programa recebeu mais de mil projetos.

Mas havia uma assimetria evidente: muitos empreendedores procurando oportunidades e poucos investidores disponíveis para conversar com eles.

Quando a parceria que sustentava aquele modelo se encerrou, surgiu uma pergunta empreendedora: e se, em vez de depender apenas de investidores, trouxéssemos grandes empresas para a mesa?

Empresas também tinham recursos. Mais importante: tinham problemas.

Tinham clientes, canais, infraestrutura, conhecimento, tecnologia, profissionais e desafios esperando solução.

A ideia passou a ser aproximar empreendedores de desafios reais de organizações. No lançamento da Open Startups, 119 grandes empresas aderiram como membros fundadores dessa rede.

E aconteceu algo interessante.

A presença das empresas começou a atrair não apenas estudantes, mas profissionais, pesquisadores, executivos e pessoas que já possuíam conhecimento e experiência acumulados e perceberam naquele ambiente uma oportunidade para empreender.

O que havia começado como uma iniciativa fortemente ligada à formação e à universidade virou um ecossistema.

O experimento cresceu

Ao longo da década seguinte, cerca de 45 mil startups e 10 mil corporações passaram pela rede, produzindo aproximadamente 165 mil relacionamentos registrados e R$ 21 bilhões em contratos.

Entre as empresas que passaram pelos primeiros ciclos estão nomes como Hotmart, Neon e Sólides, além de centenas de outras empresas que cresceram, receberam investimentos, fizeram contratos ou foram adquiridas.

Esses são outcomes.

Empresas criadas. Contratos. Investimentos. Aquisições. Crescimento. Produtos chegando ao mercado.

Conseguimos estimular muito o empreendedorismo.

Mas existe uma diferença importante: estimular pessoas a empreender não é a mesma coisa que ensiná-las a empreender.

E essa percepção nos levou a uma nova pergunta.

Afinal, como essas pessoas aprenderam?

Ao conversar ao longo dos anos com empreendedores, uma resposta aparece com frequência:

“Aprendi fazendo, trocando experiências com outros empreendedores, fazendo parte de comunidades”

Mas, quando aprofundamos a conversa, normalmente descobrimos algo mais interessante.

Eles também estudam muito.

Leem livros. Procuram casos. Acompanham outros empreendedores. Ouvem podcasts. Conversam com especialistas. Procuram mentores. Pesquisam uma tecnologia quando precisam entendê-la. Estudam vendas quando precisam vender. Aprendem finanças quando o caixa aperta. Estudam contratação quando precisam formar um time.

Ou seja: muitas vezes eles empreendem primeiro e, quando encontram um problema, procuram o conhecimento que pode ajudá-los a resolvê-lo.

São, em grande medida, autodidatas dirigidos pelos problemas que encontram.

Isso gera uma pergunta incômoda:

Se parte desse conhecimento estivesse disponível antes, alguns erros poderiam ser evitados?

Será que alguém conseguiria aprender mais rapidamente?

Será que poderíamos combinar melhor teoria, prática e acesso ao ecossistema?

Antes de ensinar, precisamos saber onde cada pessoa está

Duas pessoas podem entrar na mesma universidade, fazer a mesma disciplina e possuir capacidades empreendedoras completamente diferentes.

Porque empreendedorismo também é aprendido fora da sala de aula.

Alguém pode ter crescido acompanhando a família em um pequeno negócio. Outro pode ter aprendido negociação vendendo alguma coisa. Alguém pode ter organizado uma festa, liderado uma liga universitária, conseguido patrocínio, desenvolvido software, realizado pesquisa científica, trabalhado em uma startup ou participado de uma empresa júnior.

Outro pode ter aprendido observando um cliente, um chefe, um fornecedor ou um empreendedor próximo.

Vivemos cercados por situações empreendedoras.

Por isso ninguém necessariamente começa do zero.

O problema é que raramente sabemos o que já desenvolvemos.

E aqui vale separar quatro coisas.

Conhecimento empreendedor: o que você conhece e compreende.

Competência empreendedora: o que você consegue mobilizar quando enfrenta uma situação.

Performance empreendedora: o que você consegue efetivamente fazer diante de um problema concreto.

Outcome empreendedor: o que resulta disso – aprendizado, produto, cliente, negócio, produtividade, emprego, inovação ou valor criado.

Uma coisa influencia a outra. Mas elas não são iguais.

Talvez precisemos medir para conseguir treinar

Não para dizer quem “nasceu empreendedor”.

Não para criar um ranking de quem tem ou não tem futuro.

E certamente não para inventar um “DNA ou QI empreendedor”.

A pergunta é muito mais útil: O que você já consegue fazer hoje diante de uma situação empreendedora, onde ainda depende de ajuda e o que deveria treinar em seguida?

É assim que tratamos muitas outras competências.

Antes de começar um treinamento, procuramos entender o nível atual. Não para limitar alguém, mas para escolher o próximo treino.

É isso que queremos testar agora

A 100 Open Startups está retomando a pergunta que iniciou essa trajetória anos atrás: Como podemos formar melhor a próxima geração de empreendedores?

Mas agora carregamos uma década adicional de experiência, milhares de organizações, dezenas de milhares de startups, inúmeros casos reais e muito mais conhecimento sobre como inovação acontece dentro de ecossistemas.

Nosso primeiro passo não será abrir uma sala e começar a dar aulas.

Será tentar entender melhor quem são os estudantes que querem empreender e quais capacidades eles já desenvolveram até aqui.

Por isso estamos construindo o: MAPEAMENTO INDIVIDUAL DE CAPACIDADE EMPREENDEDORA — BETA TESTERS

Ele ainda é um experimento.

Não é certificação. Não é teste de personalidade. Não pretende prever quem será um grande empreendedor.

Queremos começar com estudantes de graduação de todo o Brasil dispostos a testar conosco uma hipótese: É possível observar sinais das competências empreendedoras que uma pessoa já desenvolveu e ajudá-la a identificar aquilo que deveria desenvolver em seguida?

Esses primeiros serão o primeiro grupo ajudando a construir uma referência.

Queremos descobrir quais capacidades já existem entre estudantes brasileiros, de onde elas vieram, quais são mais comuns, quais parecem faltar e que tipo de treinamento, experiência e acesso ao ecossistema poderia desenvolvê-las.

E queremos encontrar estudantes interessados em colocar essas capacidades em prática: em desafios reais, com empresas, universidades, pesquisadores, empreendedores e outros estudantes, em projetos que possam melhorar nossas universidades, criar soluções, gerar novos negócios e ajudar a transformar o país.

Porque talvez a pergunta não seja apenas: “Empreendedorismo se aprende estudando ou praticando?”

A resposta parece cada vez mais ser: Estudando, praticando, recebendo feedback, convivendo com quem faz e fazendo tudo isso de novo.

A pergunta mais interessante passa a ser outra: O que você já aprendeu até aqui? E o que poderia ser capaz de fazer se soubesse exatamente o que treinar agora?

Caso seja um estudante universitário e quiser fazer o teste, manifeste interesse aqui: https://tally.so/r/WOVooj

Por Bruno Rondani – Founder & CEO 100 Open Startups